Mobilidade sustentável: a mudança começa em nós

A emergência climática e a crise inflacionista que se faz sentir com grande impacto no preço dos combustíveis estão a acelerar a mudança de hábitos levando a que um número crescente de pessoas privilegie estilos de vida mais sustentáveis. Uma das mudanças mais evidentes e necessárias é a redução da circulação automóvel. Os carros são necessários e vamos continuar a usá-los mas precisamos muito de políticas públicas que desincentivem a sua utilização, que favoreçam quem utiliza alternativas e que garantam a segurança e a saúde das populações. 

Desde há um ano que sou utilizador regular dos Transportes Urbanos de Braga (TUB) nas minhas deslocações para a Escola de Medicina da Universidade do Minho e o Hospital de Braga. Antes de começar a utilizar o autocarro como meio de transporte frequente (há dias em que continuo a ter que me deslocar de carro) acreditava que essa opção não seria possível. Muitas das barreiras estavam na minha cabeça e acabaram por ser ultrapassadas sem problemas.

É verdade que Braga é uma cidade onde os automóveis são donos e senhores de particamente todo o espaço público. É verdade que essa opção política se mantém há várias décadas não tendo sido contrariada por nenhum executivo camarário. É verdade que a utilização de transportes públicos não é possível para todos os cidadãos, em particular para os que residem em freguesias mais afastadas. É verdade que a rede de transportes públicos da cidade poderia ser muito melhorada. Mas também é verdade que há muitos cidadãos que já poderiam utilizar os transportes públicos como opção prioritária, forçando as mudanças que são necessárias para termos uma cidade mais moderna, mais sustentável e mais saudável. A mudança depende de todos e cada um pode (e deve) fazer a sua parte.

As linhas 74 (Hospital – Camélias) e 85 (Hospital – Estação) têm muito do que se espera de uma rede de transportes públicos no século XXI: a regularidade é aceitável (passam de 15 em 15 minutos), os veículos encontram-se em bom estado e os motoristas desempenham o seu trabalho com profissionalismo. Faltam vias dedicadas, faltam melhores condições de espera em algumas paragens (por exemplo, na Rua 24 de Junho a paragem faz-se em plena faixa de rodagem), falta informação em tempo real acerca dos veículos em circulação e falta um sistema automático de pagamento por cartão de débito ou crédito. Se estas duas linhas tivessem tudo isto e se conseguíssemos replicar estas linhas em todo o concelho então estaríamos muito bem.

Mas não é só nos transportes públicos que precisamos de melhorar. A cidade precisa de acompanhar as tendências internacionais e incentivar o uso de meios de transporte suaves como as bicicletas e trotinetes. Para além da construção de mais vias reservadas a bicicletas é importante promover uma convivência segura entre os veículos motorizados e os velocípedes, implementando mecanismos efetivos de redução da velocidade dos automóveis.

Foi recentemente notícia que a Polícia Municipal andava a fiscalizar as bicicletas que se deslocam nas vias pedonais da zona central da cidade. Esta ação causou estupefação generalizada. Em primeiro porque aconteceu nas mesmas ruas em que circulam frequentemente automóveis, carrinhas e até camiões TIR; e, em segundo, porque foi efetuada no mesmo dia em que vários carros estacionavam de forma irregular nos passeios, passadeiras e paragens de autocarro um pouco por toda a cidade. Não se questiona a necessidade de promover uma convivência saudável entre os velocípedes e os peões mas este zelo com os ciclistas contrasta com a reiterada complacência com os carros que circulam em excesso de velocidade e estacionam irregularmente colocando em risco a segurança dos peões. O que seria desejável é que a zona pedonal fosse assumidamente uma zona partilhada entre peões e bicicletas com informação muito clara acerca da prioridade dos peões e das velocidades máximas recomendadas aos velocípedes.

Finalmente precisamos de melhorar e facilitar a circulação pedonal. Não é preciso sair do centro da cidade para encontrar muitos problemas que poderiam ser rapidamente corrigidos: na Rua de Santa Margarida, os passeios poderiam ser alargados e as árvores da vertente nascente deveriam ser maiores para garantirem mais sombra; na Rua de São Domingos os passeios ou não existem ou são meramente decorativos, obrigando a circular na estrada enquanto os carros passam com velocidades indecorosas; na Rua Martins Sarmento, os passeios são um autêntico parque de estacionamento e, mais a Sul, estão totalmente ocupados por árvores (ou pelos seus despojos) que deveriam estar na estrada para desimpedir a zona reservada à circulação pedonal; o atravessamento da Avenida 31 de Janeiro no Largo Senhora-a-Branca deixa os peões tanto tempo à espera que o contador nem cabe no mostrador do semáforo.

O caminho é longo e, por isso, precisamos de começar hoje. A mudança deve começar em cada um de nós: nos nossos hábitos e, ao mesmo tempo, na exigência que colocamos nas políticas públicas de urbanismo e mobilidade.

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