A negação da ciência “em nome” da ciência

No momento em que escrevo para assinalar o disparate anti-científico em que se converteu a página Sci-Med não quero deixar de salientar que não duvido das boas intenções com que o projecto nasceu. A verdade é que há muito tempo percebemos que não se trata de um projeto de divulgação científica, de promoção da evidência baseada na ciência ou de defesa de políticas públicas assentes no conhecimento científico mas antes de uma página de divulgação das opiniões políticas e ideológicas dos seus promotores. Opiniões que, não raras vezes, promovem discursos de ódio e fundamentam posições eugénicas que facilmente associamos a tempos e regimes pouco recomendáveis.

Se há coisa que esta pandemia nos mostrou é que a ciência não se alimenta de dogmas mas do questionamento constante e não sobrevive com a paz das certezas absolutas mas com a inquietação da dúvida permanente. Ao longo dos últimos tempos percebemos como a ciência se adaptou para nos mostrar a melhor saída para esta pandemia. E, como todos testemunhamos, a melhor saída é, seguramente, a que assenta no conhecimento científico que se constrói colaborativamente, de forma aberta e sem certezas absolutas mas com observações que geram novas perguntas e novas inquietações.

A ciência tenta sistematizar a realidade com a melhor precisão e imparcialidade possíveis mas o simples facto do observador ser humano introduz uma parcialidade que recomenda mais prudência e sentido crítico e menos arrogância a qualquer cientista e/ou divulgador de ciência.

Embora a ciência procure desinteressadamente compreender a realidade não podemos conceptualizá-la desinteressada da sociedade a que se destina. Fazê-lo seria ignorar os consensos éticos que sobre ela impendem e regressar a um tempo em que a experimentação científica se sobrepunha a todas as coisas.

Acreditar que a ciência sabe tudo sobre tudo é próprio dos ignorantes que não percebem nada de ciência. Ignorar a função social da ciência é próprio dos reducionistas radicais. Utilizar a suposta evidência científica para fundamentar opiniões pessoais é de uma desonestidade tremenda.

A postura científica é aquela que afirma com prudência e questiona com humildade. Nada disso vamos no Sci-Med. Não é nem uma ciência baseada na evidência, nem uma evidência baseada na ciência mas apenas os desejos, as ideologias e as interpretações dos autores dos vários textos de opinião partilhados sobre o epíteto (e com a suposta autoridade) de serem “científicos”.

Infelizmente, e ao contrário do que eventualmente desejam, projetos destes não ajudam a ciência com os seus textos dogmáticos, superficiais e sem referências científicas apropriadas. Pelo contrário, contribuem para o seu descrédito e para confundir a sociedade acerca daquilo que a ciência efetivamente é.

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