A discriminação das doenças psiquiátricas

A pandemia trouxe a saúde mental para o centro do debate público. Ao longo do último ano percebemos que, perante uma situação nova e difícil, todos experimentamos o medo, a ansiedade, a tristeza, a frustração, a desilusão, a insónia e a falta ou excesso de apetite. Mais importante ainda, percebemos que podemos (e devemos) falar sobre isso com os nossos amigos, com a nossa família e com os nossos colegas.

A saúde mental é o estado em que realizamos todo o nosso potencial nas diferentes dimensões da nossa vida. A promoção da saúde mental é um assunto de todos, envolvendo praticamente todas as dimensões da nossa existência – das relações interpessoais às condições de vida, da mobilidade sustentável à poluição, das condições de trabalho à alimentação, da qualidade de sono à prática do exercício físico e da segurança pública ao acesso a cuidados de saúde.

Uma sociedade que investe na saúde mental é uma sociedade mais coesa, mais forte e em que menos pessoas adoecem. A promoção da saúde mental deve, por isso, estar presente em todas as políticas públicas, garantindo que vivemos de forma mais harmoniosa uns com os outros, que aprendemos desde novos a gerir e expressar as nossas emoções (positivas e negativas) de uma forma mais adaptativa, que resistimos aos preconceitos machistas, xenófobos e homofóbicos que continuam a corroer as nossas relações interpessoais e que reconhecemos precocemente os sinais de doença psiquiátrica procurando ajuda profissional tão cedo quanto possível.

As doenças psiquiátricas são doenças do cérebro com impacto nas emoções, nos pensamentos, nos comportamentos, nas percepções, na motivação e em outras funções cerebrais a que, pela sua complexidade e importância, chamamos superiores. Desenvolvem-se pela conjugação de alterações genéticas, geralmente herdadas, e de adversidades ambientais como eventos de vida negativos, situações traumáticas, poluição ambiental e situações de vulnerabilidade social como a pobreza, a discriminação ou às más condições de trabalho.

O tratamento das doenças psiquiátricas realiza-se por etapas. Uma vez estabelecido o diagnóstico, inicia-se o tratamento que inclui, habitualmente, medicamentos e psicoterapia bem como intervenções pluridisciplinares com a participação de enfermeiros de saúde mental, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, entre outros profissionais. Quando se verifica a necessidade de internamento, este é assegurado nos Hospitais por equipas constituídas por todos os profissionais mencionados.

Pela sua frequência e consequências potenciais, o tratamento das doenças psiquiátricas requer uma rede de cuidados dispersa por todo o território nacional com condições para receber, diagnosticar, tratar e acompanhar todos aqueles que se encontram doentes.

Ao contrário do exigível, persistem graves problemas nas respostas públicas em Saúde Mental, verificando-se assimetrias locais que ameaçam de forma determinante a coesão nacional. O atual modelo de financiamento dos serviços de Psiquiatria não favorece as boas práticas e as estatísticas oficiais ocultam graves disfunções que se verificam em alguns Hospitais. Para melhorar o tempo de espera até à Primeira Consulta de Psiquiatria (critério frequentemente utilizado como indicador de boa performance), vários serviços aumentaram o número de primeiras consultas e/ou incentivaram a sua realização sem garantirem condições para o acompanhamento regular das pessoas. Como resultado, é possível que uma pessoa seja atendida numa Primeira Consulta de Psiquiatria e só venha a ser reavaliada um ano depois sem ter acesso a qualquer consulta de Psiquiatria ou Psicologia nesse período.

Estas situações colocam em causa a qualidade e a continuidade dos cuidados, gerando situações de agravamento clínico, precipitando os internamentos e aumentando o recurso às urgências onde apenas se podem implementar soluções transitórias. Além disso, existem hospitais que não garantem o atendimento urgente às populações que servem, obrigando à deslocação dos utentes para outros serviços que acabam sobrecarregados em prejuízo dos seus próprios utentes. São problemas que, estando identificados há anos, não têm recebido a devida atenção por parte de quem decide.

Também aqui se percebe a discriminação das doenças psiquiátricas. Se estas graves carências acontecessem noutros serviços e com outras doenças sabemos como a pressão social já teria obrigado a resolver estes problemas. A valorização dos cuidados de saúde de psiquiatria tem que começar nas próprias instituições do SNS. Temos, por isso, a obrigação de defender o direito à saúde das pessoas que aguardam mais de um ano por uma consulta de seguimento em Psiquiatria e daquelas que, estando doentes, se deslocam entre hospitais sem qualquer sentido. É por elas que precisamos de criar condições para que cada serviço de Psiquiatria possa ter o número de psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, terapêutas ocupacionais e assistentes sociais adequado para a população que serve. Podemos começar por aqui?

Publicado no Correio do Minho

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