Unir Braga e Guimarães

Prosperar fora de Lisboa e do Porto é uma tarefa muito difícil num país tão centralista e centralizador como Portugal. E esse é um dos principais problemas do nosso país.

O município de Braga é o maior concelho fora das Áreas Metropolitanas e o quadrilátero urbano (Braga, Guimarães, Famalicão e Barcelos) é, destacadamente, o maior centro urbano fora de Lisboa e do Porto. Para além destes quatro municípios, os núcleos urbanos de Vila Verde, Amares, Esposende, Vizela, Fafe e Póvoa de Lanhoso estão organicamente integrados no quadrilátero, formando um núcleo que agrega perto de 800 mil pessoas. No Alto Minho, o vale do Lima congrega perto de 150 mil pessoas.

Com 10% da população, o Minho é responsável por cerca de 15% dos bens exportados pelas empresas nacionais e apenas 6% das importações, contribuindo de forma determinante para equilibrar a balança comercial do país (dados PORDATA de 2019).

Apesar da sua importância demográfica e económica, o Minho continua sem uma voz ativa, relevante e decisiva no conjunto nacional. Uma voz que lhe permita consolidar-se como terceiro centro urbano do país e maximizar a sua capacidade de gerar riqueza e, dessa forma, contribuir para melhorar as condições de vida das suas populações e as condições económicas e competitivas do país.

Comecemos pelas nossas responsabilidades e por pensar naquilo que podemos fazer para melhorar a vida das nossas comunidades. Somos uma região excessivamente pulverizada em bairrismos que há muito deixaram de fazer sentido e de servir os nossos interesses comuns.

Em primeiro, talvez seja tempo de rever a organização em três Comunidades Intermunicipais (Alto Minho, Ave e Cávado). Os municípios são territórios demasiado pequenos neste mundo globalizado e as três Comunidades Intermunicipais que nos separam são divisões artificiais e inorgânicas que não servem os nossos interesses. Ao dividir o Minho em três partes, dificulta-se a possibilidade de desenvolvimento de uma estratégia verdadeiramente integradora e comum. Ao contrário do que sucede nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto, não existe no Minho uma voz (nem uma entidade) que agregue as nossas vontades e o nosso sentir, que defenda a nossa visão para a região e que defina uma estratégia de desenvolvimento para o futuro.

Em segundo, continuamos sem capacidade de desenvolver projetos mobilizadores e transformadores com dimensão suficiente para unir Braga e Guimarães, duas cidades que distam quinze quilómetros e demasiados séculos entre si. A Universidade do Minho, um projeto verdadeiramente regional e extraordinariamente bem sucedido no plano nacional e internacional, é o caderno de encargos para o que temos que fazer em conjunto.

Como no Ensino Superior, também na Saúde precisamos de criar mais pontes. A conjugação de esforços entre os diferentes atores é fundamental para que o Minho possa ter todas as valências e especialidades hospitalares que a sua dimensão e diferenciação já justificam. Por outro lado, as redes de referenciação hospitalar continuam demasiado confusas e não respeitam o desenho das comunidades intermunicipais. O munícípio de Vieira do Minho, por exemplo, decide a rede viária e a organização de cuidados de saúde na CIM do Ave mas as pessoas são referenciadas para atendimento hospitalar em Braga (CIM do Cávado). Em Famalicão (CIM do Ave), as especialidades têm referenciação para o Hospital de Braga (CIM do Cávado) à excepção da Psiquiatria que é direcionada para o Hospital de São (AMP Porto). Este desalinhamento entre as CIM e a realidade são mais um indicador da urgência da sua revisão.

Em terceiro, continuamos sem uma visão integrada da mobilidade no Minho. Depois de décadas de abandono das redes urbanas de transportes coletivos, o governo passou a considerar os transportes de Braga e Guimarães nos planos de apoio que, no passado, eram dedicados quase exclusivamente a Lisboa e Porto. O apoio, ainda insuficente, não deixa de ser um sinal positivo mas é bastante triste sabermos que autocarros que deixam de servir no Porto vêm para Braga. Há mesmo uns portugueses de primeira e outros de segunda?

A ferrovia está integralmente direcionada para a ligação de Braga, Guimarães, Famalicão e Barcelos com o Porto (e Lisboa) não promovendo qualquer articulação entre as grandes cidades do quadrilátero. A ligação ferroviária entre Braga e Guimarães – adiada há mais de um século – continua sem projeto e não se vislumbram reais intenções de a ver concretizada. Demoramos mais tempo a chegar a Guimarães do que a chegar ao Porto. Alguém compreende isto?

Perder a oportunidade de ligar o quadrilátero por ferrovia nesta década é trabalhar para um país ainda mais centralizado em Lisboa e no Porto e, pior que tudo, contribuir para que fiquemos ainda mais pobres, mais desiguais e menos competitivos.

É desta que nos juntamos e fazemos deste 15 quilómetros que nos unem a nossa força para vencer o futuro?

Publicado no Correio do Minho.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: