Elogio da solidão

Especulamos quotidianamente sobre o impacto da pandemia nas nossas vidas e relações. O exercício é uma espécie de evitamento à pergunta que importa: como éramos quando chegámos aqui?

A solidão é-nos apresentada como uma consequência do confinamento. A advertência parece ignorar que víviamos um tempo já caracterizado pela fragilidade das relações sociais. A era das redes sociais substituiu a qualidade pela quantidade, afogando-nos num excesso de conexões superficiais que não se estabelecem entre as pessoas que existem mas entre os papeis que escolhemos representar no espaço virtual. Em vez de usufruirmos de cada momento passámos a vivê-lo para mostrar que o usufruímos.

Quando nos obrigaram a mudar de planos, angustiámo-nos com o que deixámos de fazer – não como se fora algo que não pudemos desfrutar mas como se o tivéssemos perdido. Desvalorizamos que a pressa de experimentar tudo antes de todos nos tinha já condenado a meros consumidores de experiências e emoções de que, verdadeiramente, não usufruímos.

O valor de cada coisa sempre esteve entregue a uma certa subjetividade que nos poupava à frustração que o desfasamento entre o idealizado e a realidade pode gerar. Agora que o valor passou a estar indexado às interações, gostos, comentários, encurralámo-nos na frieza objetiva dos números, alimentando a voracidade incontrolável de, sozinhos, querermos mais e mais.

Talvez não estejamos tão mais isolados do que antes nem tenhamos adiado tanto como tememos. Aproveitemos a ocasião para nos encontrarmos connosco próprios e habitarmos cada momento mais serenamente.

Publicado no JN.

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