Uma cidade para as pessoas

Há muito se percebeu que a organização das cidades é fundamental para a nossa saúde. O desenho urbano, a proximidade a espaços verdes, a circulação automóvel e a poluição visual influenciam a forma como vivemos e como adoecemos de uma forma muito significativa. Sem nos apercebermos, as cidades podem ser uma fonte de felicidade e uma vacina contra a doença ou, pelo contrário, ser a própria causa de muitas doenças.

Nas cidades bem planeadas, bem construídas e bem organizadas, as pessoas vivem melhor e têm mais saúde. É por isso que, em todo o mundo, as cidades se vêm transformando para garantir melhores condições para todos. O conceito da cidade de 15 ou 20 minutos está a ganhar tração em toda a parte. O objetivo é garantir que tudo aquilo de que se necessita para o dia a dia possa estar a uma distância de 15 ou 20 minutos a pé, de bicicleta ou de transporte público. É uma visão verdadeiramente transformadora que requer um forte compromisso das autoridades locais, mas também um envolvimento dos cidadãos através da promoção de uma maior literacia e do estímulo à sua participação ativa na governação municipal.

Os graves problemas urbanísticos da cidade de Braga são conhecidos desde há várias décadas. Falamos de um planeamento urbanístico medíocre, da densidade de construção excessiva em algumas zonas da cidade, da prolongada carência de espaços verdes e zonas de lazer, da existência de pavilhões comerciais em zonas habitacionais, da falta de condições adequadas para a circulação pedonal, do défice de vias cicláveis ou da impertinência das autoestradas que rasgam o centro da cidade.

Apesar de as soluções serem óbvias e amplamente consensuais entre os especialistas em urbanismo, a verdade é que continuamos a adiar a transformação de que a cidade precisa. Para se perceber as deficiências basta que cada um saia a pé de sua casa – ou de um ponto no centro da cidade – para se deslocar a um dos quatro grandes empregadores da cidade: o Hospital público, a Universidade do Minho, a Bosch ou o shopping Braga Parque. Para chegar a pé a qualquer um dos locais citados, as dificuldades e as barreiras à circulação pedonal (e de bicicleta) são mais do que evidentes.

Os passeios são estreitos e estão invariavelmente em más condições, expondo os peões ao desconforto da água projetada pelos carros que circulam a altas velocidades nas vias adjacentes; em muitos casos, os passeios estão obstruídos por todo o tipo de material urbano, algum já sem qualquer utilidade, ou por troncos e raízes de árvores que entretanto foram abatidas; as árvores que se repõem continuam a ser colocadas no meio dos passeios, o que obstaculiza a deslocação em cadeiras de rodas ou com carrinhos de bebé quando o mais útil seria deslocaliza-las para as estradas e ruas.

Os percursos são sinuosos e implicam, várias vezes, trajetos espantosamente mais longos do que o necessário. Os peões é que têm que circundar as vias de circulação automóvel que ficam com o caminho mais amplo e direto. As passadeiras são desrespeitadas por veículos que circulam sistematicamente em excesso de velocidade e sem qualquer controlo.

A somar a estas dificuldades e apesar das melhorias mais recentes, os transportes públicos ainda estão longe de responder às reais necessidades das populações.

Mais do que intervenções pontuais, precisamos de uma visão transformadora que coloque Braga no centro da grande região urbana do Minho. Precisamos de garantir a integração na rede ferroviária de alta velocidade com ligações urbanas diretas a Barcelos, Guimarães e Famalicão. Precisamos de reservar mais vias dedicadas ao transporte coletivo. Precisamos de cuidar melhor dos nossos passeios e vias pedonais. Precisamos de transformar as nossas rodovias em avenidas para as pessoas, as bicicletas e, também, para os automóveis. Precisamos de construir mais praças e mais jardins. Precisamos de ciclovias em todo o concelho. Precisamos de maior disciplina no estacionamento. Precisamos de libertar as praças e os passeios para as pessoas. E também precisamos de mudar alguns dos nossos hábitos.

Muitas cidades estão a aproveitar a pandemia para implementar mudanças profundas na ocupação do espaço urbano e nos hábitos dos cidadãos. Também aqui teremos que fazer essa transformação.

Publicado no Correio do Minho.

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