Transformar a cidade para vencer a pandemia

Terminou ontem a primeira fase de combate à pandemia. Depois de um confinamento quase total que nos ajudou a (re)descobrir a capacidade de adaptação absolutamente extraordinária do ser humano, retomamos algumas atividades das nossas vidas embora com múltiplas limitações e precauções.

As medidas drásticas que foram implementadas nesta primeira fase de combate à pandemia tiveram dois objetivos primordiais: proteger as pessoas que, pela sua idade ou por fatores de risco, são mais vulneráveis às consequências negativas do coronavírus e garantir que os serviços de saúde têm condições para responder perante um pico de infeções concentradas no mesmo período de tempo. Os resultados obtidos foram importantes para salvar vidas e evitar a ruptura do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Na primeira fase, a resposta foi dominada pela intervenção das autoridades de saúde, das unidades de cuidados de saúde e dos centros de investigação biomédica. Em conjunto, estas infraestruturas foram fundamentais para identificar o vírus, providenciar tratamento aos doentes, garantir o isolamento dos infetados e promover a implementação das medidas de saúde pública necessárias ao achatamento da curva. As autarquias complementaram, na maior parte das vezes com sucesso, a resposta coordenada pelo Governo, oferecendo soluções de maior proximidade.

Agora que entramos na segunda fase, precisamos de trabalhar para manter o número de infetados em níveis adequados à resposta do SNS e também para minimizar as consequências indiretas do vírus. Entre estas contabilizamos os efeitos nefastos da crise económica e social que a pandemia produziu, a redução global de cuidados de saúde para as outras situações de doença e os efeitos adversos das medidas de combate e das mudanças de hábitos que surgem em resposta à pandemia.

Agora que entramos na segunda fase da resposta, o papel das autarquias será muito mais determinante para minimizar as consequências indiretas da crise. A pandemia tem sido particularmente dura para as pessoas que vivem em condições sociais mais desfavorecidas. Preocupam-me as pessoas que foram confinadas em casas sem condições de habitabilidade e também aquelas que perderam os seus empregos ou reduziram os seus rendimentos de forma significativa, tendo agora menos condições para lidar com as dificuldades impostas pela crise. É muito importante que as comunidades municipais se organizem para proporcionar respostas sociais e de estímulo da atividade económica que complementem as medidas de caráter extraordinário que o estado central está a promover.

Outro aspeto determinante diz respeito à organização urbana das cidades. A crise pandémica deixou evidente que as cidades com desenhos urbanos deficientes proporcionam vidas mais penosas aos seus habitantes. Ainda antes de começar a crise, a Presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, tinha lançado um ambicioso programa denominado “A cidade de 15 minutos”. Suportada por robustos estudos científicos, propunha que todas as pessoas pudessem viver a 15 minutos (a pé ou de bicicleta) dos serviços de que necessitam diariamente. Esta revolução irá melhorar significativamente a vida dos parisienses e tem potencial para ser exportada para qualquer cidade do mundo. Mais fácil ainda será implementá-la nas cidades de média dimensão que temos em Portugal.

Uma das consequências mais graves que a crise nos pode trazer será um regresso à selva do automóvel em que vivíamos até Março. O medo de utilizar os transportes públicos levará certamente muitas pessoas a preferir os automóveis particulares e isso comporta riscos que não podemos ignorar: para além das vítimas de acidentes e atropelamentos, a poluição automóvel tem efeitos nefastos na nossa saúde – embora não mate tão depressa como este vírus, o automóvel é também altamente letal.

O regresso progressivo à normalidade é, por isso, uma oportunidade para repensarmos as cidades, criando melhores condições para que as pessoas possam circular a pé ou de bicicleta e construindo os parques verdes que tanta falta fazem às nossas populações. Sem esta visão, as consequências da pandemia serão muito mais difíceis e dolorosas para todos. Bem sabemos que a curva do vírus é mais visível do que o sofrimento e a mortalidade provocados pelos impactos indiretos da pandemia. Mas isso não pode reduzir as responsabilidades de todos na construção da mudança que as nossas cidades e as nossas vidas precisam.

Publicado no Correio do Minho

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