As emoções contra a democracia

O anúncio que a Google preparou para o Super Bowl (maior evento desportivo dos Estados Unidos da América) é tão comovente quanto perigoso – um extraordinário exemplo da influência das emoções nos processos de tomada de decisão. No anúncio de 90 segundos (e muitos milhões de dólares), a Google coloca um homem viúvo a narrar as memórias de uma vida feliz ao lado da sua companheira, Loretta. Para avivar a memória, o narrador pede ao Google que recupere as informações que foi armazenando ao longo de uma vida em conjunto. E o Google obedece, pacificando o medo do esquecimento. As reações de comoção foram generalizadas.

Como se percebe, para uma empresa cujo negócio é armazenar dados de pessoas, o sucesso do anúncio é diretamente proporcional ao nível de manipulação que consegue operar. De repente, é como se todos quiséssemos que o Google ficasse com todas as nossas informações (incluindo, talvez, as memórias e os pensamentos) na ânsia de não esquecermos nunca mais aquilo que, ainda que instantaneamente, nos fez felizes.

Por muito estranho que possa parecer, a verdade é que o mundo que percecionamos não corresponde exatamente ao mundo que existe na realidade. O nosso cérebro apenas processa uma pequena parte da infinidade de estímulos que recebe por minuto, selecionando depois alguns que acabam por se transformar em memórias e influenciar as nossas crenças, opiniões e decisões acerca de determinado assunto. As emoções, por serem mais “primárias”, acabam por ser determinantes no processo de escolha, sobrepondo-se frequentemente à avaliação racional dos dados disponíveis.

No século XXI, o ser humano contacta com mais informação por minuto do que em qualquer outro período da história. As redes sociais expandiram muito significativamente os estímulos informativos a que estamos sujeitos e, dessa forma, influenciam determinantemente as nossas decisões. Cientes destes factos, os movimentos populistas começaram a utilizar estes meios para influenciar a perceção que as pessoas têm do mundo e, dessa forma, manipular as suas decisões.

O movimento populista foi bem sucedido nos Estados Unidos (com Trump), no Reino Unido (com o Brexit) e no Brasil (com Bolsonaro). Em três contextos distintos, os ingredientes foram os mesmos: desinformação, através da partilha de informações falsas como se fossem notícias verdadeiras; manipulação, através da sobre-exposição a fenómenos raros para fazer as pessoas acreditarem que são muito frequentes; perseguição às minorias, fazendo crer que os seus inexistentes privilégios são a causa de todos os males da sociedade; moralismo anti-sistema, passando a ideia de que “a corrupção domina o sistema democrático liberal” para promover um sistema não democrático onde a corrupção das elites dominantes possa ser ocultada da população (como sucede em todos os regimes alternativos à democracia liberal).

A estratégia de marketing dos populistas assenta no primado das emoções sobre a racionalidade. Apesar de vivermos no terceiro país mais seguro do mundo, o medo é instigado entre as pessoas, fazendo-as acreditar que a criminalidade é muito frequente. Apesar de vivermos numa democracia liberal e humanista que reduziu significativamente a pobreza no país, a raiva contra um sistema pretensamente dominado pela corrupção e pelos “direitos das minorias” é outra das especialidades dos populistas. Procuram nos grupos mais vulneráveis (desempregados e trabalhadores precários) e em personalidades menos harmoniosas que se se sentem injustiçadas com tudo, uma base para a disseminação da raiva contra a democracia sem proporem qualquer alternativa viável. Exploram a vulnerabilidade sem pudor, agregam descontentamentos contraditórios e prometem tudo a todos até alcançar o poder.

Quando o alcançam, começam por perseguir as minorias mais vulneráveis para depois perseguirem os professores, os enfermeiros, os médicos, os juízes, os informáticos, os funcionários públicos, os operários, os agricultores, os empresários e todos os que se opõem às suas ideias e não fazem parte do grupo restrito de poder.

O modus operandi dos populistas não é diferente do que usam os movimentos anti-vacinas. A diferença é que estes últimos provocam mortes facilmente identificáveis enquanto os populistas provocam danos nas sociedades que apenas se tornam percetíveis com o passar do tempo.

Não há como esconder a preocupação quando vemos pessoas pretensamente informadas e membros de partidos supostamente moderados alinhar com o discurso dos movimentos populistas. É natural que todos tenhamos medos, é compreensível que todos possamos experimentar pensamentos enviesados e preconceituosos acerca dos outros, é aceitável que possamos estar descontentes com algumas das disfunções da nossa democracia e é saudável que exijamos aos políticos uma ação mais eficaz na redução das desigualdades e assimetrias. O que não é natural, nem compreensível, nem aceitável nem saudável, é que deixemos que a manipulação das nossas emoções destrua a convivência e o progresso social que construímos coletivamente ao longo da nossa democracia.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: