A ditadura do automóvel

Quem circula por Braga há muito se apercebeu da ditadura que domina de forma absoluta o espaço público, subjugando todos os cidadãos aos seus ditames e caprichos. Trata-se da ditadura do automóvel que ocupa todos os espaços da cidade sem qualquer lei nem critério, enquanto expulsa as pessoas dos passeios que eram seus, empurra os ciclistas para bermas de vias de velocidade excessiva e polui de forma preocupante o ambiente em que vivemos.

O uso excessivo do automóvel tem consequências nocivas tanto para a sociedade como para saúde individual de cada pessoa. Para além das mortes e lesões graves que se sucedem em atropelamentos e acidentes evitáveis, a poluição visual, sonora e ambiental gerada pelos automóveis tem como consequência o aumento de múltiplas doenças respiratórias, cardiovasculares e psiquiátricas.

Há muito que qualquer cidade do norte e centro da Europa começou a preparar o convívio seguro e saudável entre pessoas e automóveis. Na península ibérica, o movimento de transformação do espaço urbano começou mais tarde mas há alguns bons exemplos no noroeste peninsular.

Em Braga, as políticas públicas que vemos implementar em pleno século XXI repetem a estratégia (e os erros) dos anos noventa do século passado. Em Maximinos, por exemplo, anuncia-se com gáudio a redução de passeios para dar mais espaço ao aparcamento automóvel. É isto a política urbana do século XXI em Braga?

A mudança é urgente. Se nada for feito pelos responsáveis, continuaremos condenados a viver numa cidade que é um meio altamente nocivo e letal.

Em primeiro, é preciso acabar com a total impunidade no aparcamento automóvel: a câmara municipal, a polícia municipal, a PSP e a GNR têm que começar a fazer o seu trabalho e voltar a proteger os cidadãos dos abusos que atropelam os mais básicos conceitos de urbanidade. Até quando teremos que circular pela estrada porque o passeio está ocupado pelos carros dos abusadores? Até quando teremos que nos privar das praças da cidade porque foram convertidas em estacionamento privilegiado para alguns?

Em segundo, é urgente construir uma rede de vias pedonais e cicláveis seguras que devolvam às pessoas o espaço que lhes é negado pelos carros e pelas autoridades que o deveriam garantir.

Em terceiro, é prioritário continuar a promover o uso do transporte coletivo, reduzindo os preços e melhorando as rotas, e aumentando de utilização exclusiva para os transportes públicos.

Por fim, é necessário reconfigurar as ruas, estradas e avenidas dotando-as de instrumentos de redução da velocidade e garantindo um convívio mais saudável com as áreas habitadas envolventes.

Se é certo que a mudança deve começar em cada um, a verdade é que os cidadãos se vêem impotentes para combater esta ditadura do automóvel que se instalou na nossa cidade com a total passividade das autoridades competentes. Até quando a toleraremos?

Publicado no Correio do Minho.

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