Mais informação, menos populismo.

Ao longo dos últimos anos, a crispação do debate público tem aumentado de forma significativa. As redes sociais, primeiro, e alguns órgãos tradicionais de comunicação social, depois, converteram-se em autênticas ventoinhas que amplificam o ódio e o rancor das franjas mais subterrâneas e sombrias da nossa sociedade.

A agenda mediática está preenchida com crime, crime e mais crime. Nos intervalos do crime aparece a sistemática divulgação de insinuações e acusações judiciais como se de factos e condenações se tratassem, mais uma intencional hipersimplificação de problemas socias e políticos complexos que fazem todo o cidadão comum acreditar que é uma vítima injustiçada das horríveis consequências da sociedade moderna.

Em vez de contrariar a tendência, os moderados que tradicionalmente se defrontam no centro do espetro político não se têm feito rogados na hora de apoiar, de forma expressa ou velada, os discursos da extrema-direita e da extrema-esquerda em algumas das suas simplificações populistas. Têm o objetivo imediato de enfraquecer o centro-esquerda e o centro-direita, respetivamente, mas desprezam as consequências de longo prazo de tão inusitada estratégia.

A sociedade ocidental defronta-se com três agónicas provações: em primeiro, a perda de influência e dinheiro para as regiões emergentes de um mundo que inevitavelmente deixou de ser “ocidento-cêntrico”; em segundo, a perda de memória, agravada por uma intencional romantização, em relação aos regimes nazistas, fascistas e populistas que assolaram o ocidente no século passado; e, em terceiro, a perda de poder económico das classes médias, esmagadas pelo consumismo capitalista de uma sociedade permanente insatisfeita pela impossibilidade de se ter em cada momento tudo o que se deseja.

Mesmo reconhecendo que estas dificuldades existem, são complexas e não têm soluções nem simples nem fáceis é tempo de recordar algumas coisas tão óbvias que parecem estar a ser inconscientemente esquecidas.

Apesar das notícias sobre crime, crime e mais crime, vivemos num país mais seguro do que nunca. Segundo dados oficiais, a criminalidade violenta diminuiu 9% até Novembro de 2018 em relação ao mesmo mês do ano anterior; e o número de homicídios intencionais diminuiu de 143 em 1994 para 66 em 2016 (dados da PORDATA).

Apesar das repetidas notícias acerca do mau funcionamento do sistema educativo, apresentamos níveis de escolaridade maiores do que nunca. Ainda que evoluindo mais lentamente do que o desejável, o elevador social dependente do sistema de Educação tem apresentado resultados positivos.

Apesar da aparente disfunção do Serviço Nacional de Saúde, vivemos hoje mais tempo e com melhores condições de saúde do que nunca. Várias doenças que há uns anos eram rapidamente fatais, têm hoje tratamentos acessíveis a todos os cidadãos independentemente dos seus recursos financeiros.

Apesar dos custos da mobilidade serem motivo de dificuldade para algumas pessoas, temos hoje a oportunidade de construir alternativas colaborativas que assentem na partilha e na economia de recursos e de desenvolver sistemas de transporte mais ecológicos que contribuam para melhorar o futuro de todos.

À simplicidade das propostas irrealistas do populismo é urgente contrapor a informação credível e isenta sobre a realidade complexa dos factos. O populismo dos extremos já foi testado em vários países (da Venezuela a Cuba, do Chile aos Estados Unidos, do Brasil a Portugal) e em lugar algum produziu resultados positivos a médio e longo-prazo.

É inequívoco que precisamos de melhorar algumas coisas no nosso regime político, no sistema educativo, no serviço nacional de saúde e nos sistemas de mobilidade para promover o aumento da sua eficiência e garantir a sua sustentabilidade. Mas ignorar e desprezar sistematicamente tudo o que de positivo conseguimos construir em conjunto durante a vigência do nosso regime democrático é uma via-aberta para o desastre que nenhum de nós deseja.

Publicado no Correio do Minho.

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