Cultura é receita para Braga ser Capital Europeia?

A Fundição de Sinos de Braga foi o cenário (bem) escolhido para a divulgação pública do trabalho do Município de Braga na preparação da candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027. Para além da apresentação do portal que congrega a informação acerca do trabalho desenvolvido (braga2027.pt), foi renovada a intenção de incluir todos os agentes na dinâmica de construção de um projeto que precisa de ser coletivo e assumido por todos para ter hipóteses de ser vencedor.

Um dos aspetos mais marcantes desta apresentação pública foi o reconhecimento por parte do executivo de que um projeto desta envergadura envolve domínios da governação municipal que estão muito para além da gestão cultural em estrito sentido e de que a Cultura deve ser um dos pilares do desenvolvimento da cidade ao longo da próxima década.

É neste contexto que importa recuperar o debate acerca do destino a dar a importantes espaços municipais cujo abandono, concessão e alienação têm estado nas intenções do executivo municipal.

Enquanto o governo de Portugal anuncia a recuperação da antiga Escola D. Luís de Castro para servir como residência universitária, a Câmara Municipal de Braga segue em sentido oposto e avança com a venda do edifício da Confiança e com a concessão de uma parcela de terreno público junto ao nó de acesso ao Hospital de Braga, enquanto adia a recuperação do edifício da antiga escola Francisco Sanches que assim se degrada progressivamente. É precisamente sobre estes três dossiers que se impõe manter o debate público dado que o seu desfecho é determinante para a construção do futuro da cidade.

No caso da Fábrica Confiança, as vozes que se levantam para criticar a opção do executivo municipal vêm de todos os quadrantes políticos e sociais e incluem respeitados especialistas em urbanismo, património e arqueologia. O valor histórico e arquitetónico do edifício, a necessidade de criação de espaços culturais numa zona densamente habitada e a urgência de preservar o património do século XX aconselham o município a ser mais cauteloso nas suas intenções. Ninguém compreenderia que uma cidade que quer ser Capital da Cultura pudesse desprezar o contributo que este tipo de edifícios industriais tiveram no projeto de Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012 mesmo quando sujeitos a reabilitações de baixo custo.

No mesmo sentido, é necessário voltar a ponderar o destino a dar ao terreno encravado no nó de acesso ao Hospital de Braga. Segundo foi anunciado, a intenção é utilizar aquele terreno público para construir um ginásio privado com 150 lugares de estacionamento. Convém recordar que se trata de uma zona com elevadíssima pressão urbanística e intenso tráfego automóvel que não possui quaisquer espaços verdes de proximidade. Além de se desperdiçar a oportunidade de criar uma barreira ecológica que pudesse proteger as habitações de alguns dos malefícios da “via-rápida”, a criação de lugares de estacionamento irá saturar ainda mais o tráfego automóvel num eixo onde já existem problemas muito significativos.

Por fim, o edifício da antiga Escola Francisco Sanches (onde funcionou a DREN). Apesar de se tratar de um equipamento com enorme potencial para o alagamento estratégico do núcleo urbano central em direção ao Campus de Gualtar, a verdade é que continua votado ao abandono por parte da Câmara Municipal. Não é compreensível que o Município continue a arrendar e reabilitar espaços privados (em relação aos quais os instrumentos de gestão do território são bastantes para a garantia do interesse público) quando dispõe de edifícios públicos que poderiam ser recuperados para usufruto municipal.

O ordenamento urbanístico estratégico e coerente da cidade é fundamental para a construção do futuro. Disso ninguém tem dúvidas em nenhuma parte do mundo. No momento em que se prepara um projeto de candidatura da cidade de Braga a Capital Europeia da Cultura 2027 é fundamental que o executivo tenha a coragem de pensar o concelho a médio e longo prazo e a humildade de incluir todas/os na construção coletiva do presente e do futuro. O posicionamento nacional de Braga nos domínios da educação, da investigação, da indústria, da economia, da saúde e mesmo da cultura garante-lhe a dianteira nesta corrida de fundo pela conquista da Capital Europeia. Pode ser que, por via da Cultura, se venham a reverter os desastres urbanísticos que há muitas décadas se acumulam, se avolumam e se tornam cada vez mais difíceis de resolver.

Publicado no Correio do Minho.

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