O desastre da extrema-direita

“Hitler não chegou ao poder porque todos os alemães eram nazistas ou anti-semitas, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa.” A reflexão é de Oliver Stuenkel e vem publicado num texto publicado há uma semana no El País a propósito do resultado das últimas eleições presidenciais do Brasil.

A forma como a extrema-direita tem ganho terreno aos liberais (conservadores e social democratas) em praticamente todo o mundo democrático é um fenómeno muito difícil de compreender. As explicações multiplicam-se, mas é altamente improvável que todas as pessoas moderadas se tenham tornado machistas, homofóbicas, xenófobas e racistas de um momento para o outro.

Os fenómenos de ascensão de movimentos de extrema-direita que se verificam em vários países do mundo a que chamamos ocidental (Estados Unidos, Reino Unido, Polónia, Hungria, Itália e Brasil) partilham aspetos causais mas, ao contrário do que se possa pensar, não se configuram como um movimento único assente em pressupostos comuns. Aliás, a própria natureza nacionalista dos movimentos de extrema-direita é um fator decisivamente limitador dessa coerência internacional. Contudo, convém refletir sobre o que terão de comum estes fenómenos para evitar que nos cheguem a casa.

Ao longo das últimas décadas, as classes baixas e médias do mundo a que chamamos ocidental passaram por dificuldades económicas que há muito não conheciam. Apesar de, em geral, vivermos melhor (e com mais) do que nunca, o aumento do poder de compra foi muito baixo e as desigualdades entre os extraordinariamente ricos e todos os outros aumentaram estrondosamente. A social-democracia deixou de oferecer uma alternativa evidente ao capitalismo, sucumbindo ao cerco que este lhe montou. A direita democrática impôs o “rigor orçamental” como finalidade de toda a governação.

No mesmo período, a globalização fazia distribuir a riqueza mundial por mais gente do que nunca e propulsionava os movimentos migratórios, um fenómeno agravado pelos conflitos armados em zonas que funcionavam como tampão entre o mundo a que chamamos ocidental e o resto do mundo.

Enquanto o mundo mudava vertiginosamente, emergiam as redes sociais. Passou a ser muito fácil difundir informação sem a mediação do jornalismo. Descobrimos que é fácil manipular, partilhar notícias falsas ou fazer milhões acreditarem em factos que nunca existiram. A polarização do combate político agravou-se significativamente. A exposição do negativo maximizou-se até à náusea.

Nesta torrente de informação, a hipersimplificação do discurso tornou-se numa arma poderosa. Dizia-me uma amiga que “a corrupção está entranhada em muitas das estruturas brasileiras mas dizer que tudo no Brasil é corrupção é um argumento fácil para criar condições para os extremistas ganharem e isso assusta-me”. Ainda esta semana, um deputado da Nação eleito pelo PSD partilhava nas redes sociais uma imagem que faz parte do cardápio da extrema-direita do Brasil. Nessa imagem, as questões da discriminação racial e sexual eram reduzidas ao fantasioso cerco que os homens heterossexuais brancos vivem hoje em dia. Isto aponta-nos para as responsabilidades da direita democrática na ascensão destes fenómenos extremos: percebendo que o assalto ao poder é mais fácil pela via da extrema-direita, adotam o seu discurso e, deliberadamente ou não, contribuem para a crescente polarização da sociedade.

A democracia liberal é, inequivocamente, o melhor de todos os regimes. Mas, ao contrário dos outros regimes, requer um elevado nível de participação dos cidadãos, um extraordinário compromisso ético dos políticos e uma excecional capacidade de construir pontes e entendimentos entre pessoas com perspetivas distintas, por vezes mesmo antagónicas, da sociedade. Enquanto os regimes não democráticos silenciam aqueles que se lhes opõem (propositado eufemismo para a morte que tantas vezes está destinada aos opositores), a democracia liberal não só aceita a opinião como protege a vida e os direitos daqueles que a contestam. Porque a democracia liberal não se impõe pela força da imposição mas sim pelo poder do argumento.

Por muito fácil (e simplista) que seja acusar os democratas neste momento de descrença globalizada na democracia, a verdade é que os grandes responsáveis pela deriva atual são aqueles que, por atos e omissões, apoiam os extremistas, permitindo que a distopia se imponha.

Deixem-nos acreditar que as pessoas moderadas que elegem líderes autoritários e desrespeitadores estão motivadas pela esperança de uma solução fácil (e inexistente) para problemas complexos que exigem consensos difíceis e alargados. Talvez essas pessoas estejam convencidas que o acosso e a ameaça às mulheres, aos negros, aos imigrantes e às minorias sexuais não passem disso mesmo: uma ameaça.

Oxalá a vista grossa desta maioria moderada não nos saia tão cara como já aconteceu a outros povos no passado.

Publicado no Correio do Minho

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