A nova Rodovia: contributos para o debate público

A reconfiguração do eixo da Rodovia de Braga tem sido periodicamente notícia ao longo dos últimos quatro anos. Mais recentemente, o tema voltou a estar no centro do debate político com o anúncio da intenção de transformar esta via de atravessamento rápido da cidade numa avenida mais humanizada que possa congregar o automóvel individual, a bicicleta, os transportes públicos e a circulação pedonal.

Depois de décadas de privilégio à construção de vias rápidas para a circulação de automóveis de uso individual, a cidade de Braga tem agora a oportunidade de voltar a construir avenidas que sejam pontos de contacto entre as diferentes áreas que compõem a malha urbana. Apesar da sua reconhecida utilidade em termos de fluidez da circulação viária, a verdade é que o aumento do tráfego e as elevadas velocidades médias que ali se praticam transformaram a Rodovia num muro que separa duas cidades dentro de uma mesma cidade de Braga.

Além do impacto negativo na fruição da urbe pelos cidadãos, a manutenção destes eixos viários de atravessamento rápido da cidade comporta riscos de saúde muito relevantes: dos atropelamentos à poluição sonora, visual e ambiental. Na semana em que soubemos que Braga mantém níveis muito preocupantes de poluição do ar, um problema invisível que afeta essencialmente as três maiores áreas urbanas do país (Lisboa, Porto e Braga) e que já vitimou 6630 pessoas desde 2014, a urgência de medidas de controlo do tráfego tornou-se ainda mais premente.

A redução das vias de circulação automóvel, o aumento verdes e dos espaços dedicados aos peões, a criação de ciclovias, a reserva de vias de exclusivamente dedicadas aos transportes públicos, a eliminação das passagens aéreas e a consequente redução das velocidades de atravessamento das cidades pelos automóveis particulares é uma tendência seguida em toda a Europa ao longo das últimas duas décadas. Apesar das resistências iniciais, maioritariamente relacionadas com o medo de um possível impacto negativo das medidas de redução da circulação automóvel, a verdade é que as populações acabam por aderir às transformações quando percebem que o efeito é exatamente o oposto: a compatibilização do uso do automóvel individual com os outros meios de transporte, o aumento dos espaços dedicados às pessoas apeadas e a melhoria das condições de operação das empresas de transporte público coletivo traduzem-se, invariavelmente, num aumento da qualidade de vida, numa valorização económica das áreas intervencionadas e numa melhoria das condições gerais de mobilidade.

Para responder às necessidades dos cidadãos, o eixo da Rodovia necessita de alterações profundas e, de algum modo, disruptivas. Tratando-se de um projeto fundamental para o futuro da cidade, é imperioso que a sua execução seja determinada e a sua implementação efetivamente coletiva. Para isso, a proposta que o Município vai apresentar deve ser solidamente fundamentada em pareceres técnicos, científicos, independentes e especializados, eficazmente comunicada às pessoas (para conter a contra-informação) e genuinamente aberta ao debate e à participação de todas/os. Só assim será um projeto verdadeiramente participado e inclusivo, capaz de se tornar numa obra de (e para) todos os bracarenses.

Publicado no Correio do Minho.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: