Que Braga queremos?

Nos últimos meses, a cidade de Braga surpreendeu-se com várias opções urbanísticas do atual executivo municipal que replicam (quando não adensam) os erros que haviam sido cometidos no passado recente. Estas opções são o exato contrário do que foi prometido ao longo da década que Ricardo Rio esteve na oposição e de tudo o que o geógrafo Miguel Bandeira (vereador do Urbanismo) defendeu na sua intervenção pública. Mas, pior que tudo, estas opções urbanísticas são nocivas para a cidade e comprometem irremediavelmente a construção coletiva do seu futuro.

A opção de construir um pavilhão de lata no coração da cidade para albergar mais uma superfície comercial da SONAE é um erro colossal que dificilmente será remediado no futuro. O modelo de comércio dos centros urbanos de qualquer cidade europeia de média dimensão evita este tipo de construções, habitualmente destinadasaos subúrbios, reservando ao comércio no centro os pisos inferiores das construções existentes.

O problema do pavilhão comercial nos terrenos das Oficinas de São José é, contudo, mais sério. Como nos recorda Luís Tarroso Gomes, o plano de urbanização da Rua 25 de Abril data de 1958 e é da autoria de Miguel Resende. Tratava-se de uma das poucas áreas da cidade que se mantinha fiel ao plano de urbanização e à margem dos interesses da construção civil que tantas vezes foram criticados ao longo das últimas décadas.

Com esta decisão da autarquia, o plano de Miguel Resende foi violado e uma zona importante do coração da cidade foi dilacerada pela construção de um pavilhão de lata com um parque de estacionamento que destruiu um espaço verde central e impermeabilizou mais uma parcela considerável do solo de uma cidade que se depara sistematicamente com problemas de inundações.

Mas, havia uma alternativa? Seguramente que sim. A gestão autárquica de uma cidade não é uma tarefa fácil mesmo quando quem está na oposição quer fazer parecer que sim. De todo o modo, aquilo se espera daqueles que se ocupam da governação do município é que procurem as alternativas que mais contribuem para o desenvolvimento harmonioso da cidade e de cada um dos seus cidadãos.

Estimular um modelo de comércio que favoreça a ocupação dos espaços abandonados da cidade (e são tantos) e implementar um programa de recuperação dos antigos centros comerciais (que além do mais foi prometido por Ricardo Rio) seriam alternativas possíveis à opção escolhida. Dariam seguramente mais trabalho à autarquia, poderiam reduzir temporariamente as expetativas de lucro imediato da Igreja Católica e obrigariam à reformulação do projeto comercial da SONAE em Braga mas trariam um ganho muito significativo para a cidade e para as suas pessoas.

Ao contrário do que nos dizem, uma cidade é muito mais do que a soma dos interesses pessoais e privados dos seus cidadãos. A forma como as cidades se desenham e se organizam tem um impacto profundo na vida e na saúde das pessoas bem como na riqueza que são capazes de gerar.

Mais do que lamentar os erros do passado (que, preocupantemente, se têm perpetuado no presente), é tempo dos cidadãos assumirem a responsabilidade da construção de uma cidade mais respeitadora do património urbano (natural, edificado e humano) e mais participativa na vigilância dessa salvaguarda pelos poderes públicos. Só assim poderemos ter a Braga que todos queremos.

Publicado no Correio do Minho.

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