Um tributo a Mário Soares, o Presidente eternamente fixe

Mário Soares (1924-2017), nome maior da democracia portuguesa, foi um dos grandes políticos mundiais do século XX. Burguês e revolucionário, amado por muitos e (injustamente) odiado por outros, a verdade é que todos lhe devemos a democracia que temos.

Mais do que um político genuíno, combativo e visionário, Soares foi um homem que que soube dizer “não” quando todos tinham que dizer que “sim”, que soube dizer “presente” quando todos o reduziam ao papel de Senador da política nacional e que soube ser “igual” quando poderia ter sido um político acima de todos os outros políticos. Do primeiro ao último dia da sua vida política, Soares foi um lutador.

Convém assinalar que esteve do lado certo da história no combate à ditadura de Salazar, na revolução do 25 de Abril, na crise do 25 de Novembro, na estabilização da democracia, na adesão à Comunidade Económica Europeia e na construção de uma sociedade mais livre, mais coesa, mais plural e mais respeitadora. Numa vida política que durou sete décadas e percorreu fases tão díspares da história política e cultural do país, é notável que nunca se tenha deslumbrado com a obra feita, mantendo-se progressista e visionário, fiel aos princípios da sua formação laica e republicana.

Mais do que ter sido fundador da democracia liberal em que vivemos, Mário Soares foi um dos principais responsáveis pela construção e estabilização do período de maior paz e prosperidade que o país conheceu nos seus quase nove séculos de História.

Vivemos um tempo em que muitos se esqueceram do Portugal que os fundadores da democracia herdaram: era um país profundamente pobre e desigual, que oscilava entre o analfabetismo e a baixa escolaridade, que tinha um sistema produtivo ultrapassado e ineficaz, que não garantia cuidados básicos de saúde à esmagadora maioria da população, que não tinha água potável nem saneamento básico, que desprezava a liberdade e os direitos individuais, que usava a tortura para silenciar aqueles que discordavam dos ditames do regime e que combatia no Ultramar a posse de territórios que toda a Europa tinha já abandonado.

Foi esse país cinzento e pobre que Mário Soares e os outros fundadores da democracia (como Álvaro Cunhal e Sá Carneiro) souberam começar a transformar no Portugal moderno que conhecemos hoje.

Mas este tempo em que vivemos, o nosso tempo, tem outros perigos e desafios que precisamos de combater: ainda Soares jazia quente no seu leito e já algumas almas pequeninas mostravam as suas garras, acantonando-se e entrincheirando-se nos seus grupos ideológicos, partilhando notícias falsas nas redes sociais (que mantêm mesmo depois de saberem que são falsas) e hiperbolizando episódios que, descontextualizados, ganham contornos de ofensas ao carácter e à memória de Mário Soares.

A desinformação é o monstro do nosso tempo e o grande perigo para a nossa democracia liberal. Porque a desinformação é, precisamente, a antítese do que foi Mário Soares enquanto pessoa e do que fez Mário Soares enquanto político, é urgente que as novas gerações saibam encontrar no legado do Presidente fixe a força e a coragem necessárias para a combaterem. Contestar a desinformação é fundamental para que possamos preservar a nossa democracia – e sabemos de que lado estaria, inequivocamente, Mário Soares nessa contenda.

Apesar de todas as diferenças normais num país democrático, todos lhe devemos mais que muito. Estamos de luto: morreu o Presidente eternamente fixe. Mas todos sabemos o que podemos e devemos fazer para honrar e preservar o seu legado que é, simultaneamente, o legado de Portugal.

Publicado no Correio do Minho

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