O problema de Trump é psiquiátrico?

O New York Times recupera a história de Barry Goldwater, um político do Partido Republicano que foi considerado inapto para o exercício de funções presidenciais num manifesto assinado por mais de um milhar de psiquiatras. O polémico manifesto viria a ser condenado pela justiça norte-americana e pela Associação Americana de Psiquiatria, tendo resultado no estabelecimento da “Goldwater rule”, um preceito que determina que não é ético nem responsável emitir um parecer clínico-psiquiátrico sobre alguém que não foi diretamente avaliado pelo médico e que não concedeu autorização para a divulgação do resultado dessa avaliação clínica. A regra é, no fundo, uma redundância com os princípios éticos e deontológicos mais elementares da Medicina moderna.

Na verdade, a estigmatização da Psiquiatria está muito relacionada com esta confusão permanente entre doença psiquiátrica e comportamento desviante ou carácter disfuncional. Aqueles que tememos e a quem chamados “loucos” nas conversas de café são, frequentemente, pessoas com personalidades perturbadas que não sofrem de nenhuma doença psiquiátrica.

Recordamos que as patologias psiquiátricas são doenças do cérebro com possíveis manifestações sistémicas que se apresentam, normalmente, de uma forma silenciosa e geradora de um enorme sofrimento interno. Psiquiatrizar a política e a vida pública é uma forma de estigmatizar a psiquiatria e as doenças psiquiátricas que acaba por ser muito prejudicial para os doentes psiquiátricos. Além do mais, padecer de uma doença psiquiátrica não é, à partida e per se, impedimento para o exercício de qualquer profissão.

É por isso que é importante deixar muito claro que nem o Trump é um louco nem o seu problema é psiquiátrico. Aquilo que nos desagrada é o seu carácter e aquilo que rejeitamos são as suas ideias políticas. É fundamental que não nos afastemos disto.

Anúncios

2 pensamentos sobre “O problema de Trump é psiquiátrico?

  1. De facto, a questão é justamente essa. O julgamento de Trump deve ser moral e político e não clínico. Há muitos indivíduos com uma personalidade profundamente moral que sofrem de doenças do foro psiquiátrico, assim como haverá imensos indivíduos que um clínico consideraria normais mas a quem chamaríamos ‘loucos’ pelas ideias que professam. O problema com Trump em particular parece-me ser não apenas as ideias que professa, mas o carácter tremendamente narcisista da sua personalidade, e a permanente necessidade de atrair as atenções (o que poderá ser racional, dado que no passado os seus negócios dependeram disso). Ora, quando se chama a estes aspetos ‘personalidade perturbada’, está-se ainda assim a dizer que ele foge à norma e implicitamente a atribuir-lhe uma patologia, o que de alguma forma o desculpa. Parece-me que é necessário deixar essa ‘psicanálise barata’ de Trump de lado e dizer sem contemplações a quem diz que ‘Trump diz o que pensa’, quando quer dizer ‘ele diz o que eu penso, mas não tenho coragem de dizer’, que lamentavelmente, o seu pensamento, caro Senhor ou Senhora, é fascista, ponto… O que o ‘politicamente correto’ faz é impor balizas no discurso público e isso causa ressentimentos em que considera que essas balizas não deveriam existir e que alguém não deveria ser sujeito a censura moral por expor um ponto de vista xenófobo, por exemplo. Porque não está em causa a censura de quem assim fala, e tão só e apenas que o exercício da liberdade de expressão tem um preço…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s