Em Defesa do São Geraldo Cultural

A história tem demonstrado com invulgar clareza que a preservação do património cultural e arquitetónico é um investimento altamente rentável e sustentável para o futuro. Ao contrário do que nos prometeram insistentemente, a política da preservação das fachadas dos edifícios históricos tem redundado, invariavelmente, em perdas irreparáveis para as cidades, criando novos problemas económicos, urbanísticos e sociais. Poderíamos citar tantos exemplos na cidade de Braga que recordar os shopping Santa Cruz, do edifício dos Correios, do Centro Comercial Avenida, do Rechicho ou dos Granginhos parece ser suficiente.

O debate em torno do futuro do Salão Recreativo/São Geraldo mobilizou um conjunto muito vasto de cidadãos e associações de todos os quadrantes políticos e de todas as áreas de especialização na defesa daquele espaço enquanto valência cultural da cidade. Ao longo das últimas semanas, o movimento em defesa do São Geraldo Cultural (www.sgeraldocultural.org) foi-se consolidando e acabou por conquistar o apoio da maioria das forças políticas da cidade (Cidadania em Movimento, PS, CDU e Bloco de Esquerda) bem como de várias personalidades e associações da região. Pela sua dimensão e pertinência, os contributos que foram produzidos por vários especialistas em arquitetura, cultura e urbanismo não podem continuar a ser ignorados pelo poder autárquico e pela Arquidiocese de Braga.

Como se a profusão de projetos falhados no centro da cidade não fosse já suficientemente esclarecedora para prevenir os promotores da obra e os responsáveis do município, vários especialistas e cidadãos têm alertado para os riscos do projeto, apresentando alternativas concretas para o futuro daquele espaço. Mas o que têm recebido do Município e da Arquidiocese é uma indiferença que não disfarça o incómodo pelo debate que se gerou.

E é um incómodo que se percebe. A Câmara Municipal de Braga tinha acabado de financiar um concurso de ideias onde foram apresentadas várias propostas para o Salão Recreativo/São Geraldo. Nenhuma previa o desmantelamento do espaço e todas pressupunham a sua manutenção enquanto valência cultural. Nas Grandes Opções do Plano para 2016, o executivo municipal previa a valorização do potencial patrimonial e histórico de vários edifícios/conjuntos, entre eles, o “Teatro São Geraldo/Edifício Pé Alado”. O que é que mudou entretanto?

Apesar do Salão Recreativo/São Geraldo estar nas mãos de privados, recordamos que estes privados (Igreja Católica) têm sido beneficiários de inúmeros apoios públicos (e isenções de impostos) suportados pelas contribuições de todos os cidadãos, encontrando-se o Município numa posição negocial que naturalmente não teria com outros “privados”.

Tal como o executivo autárquico anterior salvou o Theatro Circo que era privado e estava degradado e abandonado, também hoje é possível recuperar o Salão Recreativo/São Geraldo como valência cultural e artística da cidade. Haja vontade política.

Publicado no Correio do Minho.

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