Uma campanha triste

voto

Vivemos num país que condena a maior julgamento moral um médico que ganhe 12,22€ por hora do que um grande grupo económico que deslocalize a sede para reduzir em milhões de euros os impostos que são devidos pela atividade económica que desenvolve no nosso país.

Vivemos num país que abusa do sarcasmo mais vil para vilipendiar aqueles que têm sucesso local, nacional ou internacional e que condescende de forma comiserada com aqueles que ostensivamente imputam a todos os custos da sua própria incompetência.

Vivemos num país em que os consensos se tornaram (quase) impossíveis: a cena mediática foi tomada pelo populismo diário do Correio da Manhã que mais não faz do que colocar os portugueses numa permanente guerra contra si próprios; o centro político deslocou-se tanto para a direita que a restituição dos feriados católicos acabou entregue à frente de esquerda; e a reposição de um horário correspondente à remuneração recebida converteu-se numa espécie de privilégio exótico para as faustosas existências dos funcionários públicos.

Este caminho que trilhámos até ao país que somos hoje deixou Portugal numa encruzilhada sem precedentes. O capital de esperança na capacidade coletiva de construir soluções de conjunto em que todos saem a ganhar (nem que seja um pouco) foi dizimado por anos de sucessiva, cirúrgica e injusta austeridade dirigida aos que trabalham. O poder do voto foi esvaziado pela falta de comparência dos eleitores e por um sequestro consentido de competências para Bruxelas. O papel de moderador que confiámos ao Presidente da República durante toda a democracia foi consumido pela magistratura quezilenta e parcial de Cavaco Silva que lhe garantiu o título de rei da impopularidade à saída de Belém.

É por tudo isto que grande parte dos portugueses já não quer saber destas eleições. A campanha tem sido marcada pelo completo vazio de ideias e por um deprimente debate entre dez candidatos que não têm contribuído para a dignificar. Depois de Cavaco Silva ter delapidado o capital político da magistratura presidencial, criou-se a ideia de que o Presidente da República é um mestre de cerimónias e um mero adorno de um sistema político que, de tão doente, deixou de representar uma parte muito significativa da população.

É claro que tudo isto favorece o candidato mais popular e melhor colocado nas sondagens. É por isso que Marcelo vagueia alegremente de forma errática entre a esquerda e a direita, sem se comprometer com nada, sem assumir hoje o que havia dito no verão passado e sem chamar comícios aos comícios que faz.

Não se engana quem diz que esta é a mais triste de todas as campanhas. E também não estará errado quem prevê níveis de abstenção muitíssimo elevados. A fatura pagaremos depois.

Publicado no Correio do Minho.

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