Devemos ajudar os sírios quando temos pobres à nossa porta?

syria

Os últimos dias têm sido pródigos em declarações mais emocionais que racionais.

Primeiro foi a consternação colectiva com a imagem impressionante de uma criança vestida com roupas iguais às nossas roupas a jazer numa praia turca. De um momento para o outro o mundo mediático acordou para uma tragédia que se adensa há vários anos perante a cruel indiferença de quase todos. O problema destes surtos de consternação (e/ou indignação) é que surgem tão depressa como se esboroam no éter.

Depois foi o tempo da contra-informaçãohá terroristas islâmicos entre os refugiados de guerra diz o primo de um amigo de um assessor do governo líbio a uma fonte anónima citada pelo jornal xpto; eles vêm para a Europa para nos impor o islamismo onde nós queremos impor o cristianismo; eles recusam a ajuda na Hungria onde acabaram de os enganar transportando para um campo de refugiados; os refugiados são ricos porque até têm smartphones (que custaram 35€ e são vitais para fugirem da guerra). Voltamos ao início: o que é que o menino que despertou as vossas consciências tem a ver com tudo isso?

Finalmente o renascer dos nacionalismos. Partilham-se como nunca fotografias de portugueses à espera da sopa dos pobres a que o governo indignamente os condenou quando transformou os 374€ do Rendimento Social de Inserção (valor máximo que uma família pode receber) em 600€ entregues a uma instituição de solidariedade. Pergunta-se repetidamente no Facebook se devemos ajudar os sírios quando há portugueses na miséria. Vêm-se até alguns militantes dos partidos de direita colocar os seus likes em textos que lembram o pior da fúria xenófoba dos tristes anos da segunda grande guerra. Voltamos ao início: o que é que o menino que despertou as vossas consciências tem a ver com tudo isso?

A crise humanitária que se vive por estes dias no Médio Oriente é a maior desde a II Guerra Mundial. Ajudar os milhares de sírios que escapam à morte, à destruição e à barbárie do Estado Islâmico (e à guerra entre sírios apoiados por russos e rebeldes apoiados por ocidentais) é uma obrigação de todos. A preocupação com a nossa pobreza (endémica e conjuntural) também é nobre e está ao alcance dos portugueses mudar a política que tem sido seguida e agravado as desigualdades já no próximo dia 4 de Outubro.

Mas não misturemos as coisas, não comparemos o incomparável e trabalhemos todos os dias para construir um país tão justo que é capaz de definir políticas internas de combate à pobreza dos seus e de apoiar solidariamente aqueles que não sendo seus estão mergulhados numa situação tão trágica e tão aflitiva que não somos capazes de desejar ao nosso pior inimigo.

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