A política dos nossos dias

Quem (como eu) gosta de ver a política do lado de fora dos partidos não pode deixar de estar preocupado com alguns fenómenos que ameaçam transformar a vida pública do país num pântano absolutamente asfixiante.

Em primeiro, a progressiva judicialização da política entregou aos tribunais o centro das decisões públicas mais relevantes da última legislatura, permitindo desresponsabilizar os atores políticos quando oportuno e, consequentemente, descredibilizar as instituições executivas do Estado.

Em segundo, a instrumentalização da Justiça tornou-se regra; as fugas cirúrgicas de informação em segredo de justiça e o avolumar de decisões absolutamente incompreensíveis para o comum dos cidadãos descredibilizaram a justiça e enfraqueceram o Estado de direito a ponto de não se ter por garantido, como devia, que os absolvidos são inocentes e os condenados são culpados.

E, em terceiro, a utilização da manipulação como notícia transformaram o ambiente político numa cena absolutamente irrespirável para quem nela ousar entrar. Os últimos dias foram particularmente profícuos nesta matéria: temos visto serem divulgadas pelo notícias de negócios supostamente duvidosos envolvendo António Costa (do Partido Socialista); assistimos à divulgação de uma notícia falsa pelo Correio da Manhã sobre a acumulação de reformas por João Semedo (do Bloco de Esquerda); soubemos hoje que o Diário de Notícias truncou informações e manipulou notícias acerca do ex-Secretário de Estado do governo PSD/CDS Fernando Alexandre sobre a sua alegada participação em negócios que são alvo de investigação judicial.

Uns e outros, membros de todos os partidos políticos sem excepção e mais alguns fanáticos anti-sistema, transformaram a cena pública num pântano do qual será muito difícil sair: repetem-se mentiras nas redes sociais, distorcem-se números, manipula-se informação e partilham-se notícias já desmentidas como se fossem a verdade. É que um boato é como uma almofada de penas desfraldada ao vento num dia de tempestade. Por muito que se faça para minimizar os estragos, nunca mais será possível recolher todas as penas.

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