Crónica de um fracasso anunciado

mitospassos

Os dias que vivemos não se afiguram fáceis para quase ninguém e o futuro que nos é permitido vislumbrar não encerra a esperança de outros tempos. A narrativa da “crise” e a imperiosidade de reduzir a dívida consumiram o estado social construído após a revolução de Abril. Por muito que o governo se esforce por afirmar em tempo de campanha o exacto contrário do que fez durante a governação, a verdade é que Portugal regrediu várias décadas em matéria de pobreza, emprego, coesão social e emigração. Os pobres estão cada vez mais miseráveis e os ricos estão ainda mais milionários do que estavam quando o governo chegou ao poder.

A ação do governo PSD/CDS desenvolveu-se em quatro eixos principais:

  1. diabolização dos pensionistas e dos funcionários públicos, reduzindo de forma ilegítima e inconstitucional as suas pensões e os seus salários;
  2. privatização dos sectores potencialmente lucrativos do Estado, entregando-os a interesses privados que têm agora o monopólio de vários sectores da economia;
  3. entrega da economia da pobreza à igreja católica, transferindo os subsídios das pessoas necessitadas para as IPSS, dizimando o sistema de solidariedade social e restituindo um envergonhante regime de caridade religiosa próprio de outros tempos;
  4. aumento dos impostos sobre o trabalho e do IVA pago pelas famílias associado ao redesenho das taxas contributivas (tantas vezes em benefício dos menos necessitados) ao mesmo tempo que se reduzem as taxas de IRC para as empresas tenham mais lucros para distribuir pelos seus accionistas.

No final disto tudo, perguntamos o que aconteceu à dívida pública e surpreendemo-nos com o facto de, apesar disto tudo, a dívida ter crescido para níveis astronomicamente superiores aos que tinha quando este governo chegou ao poder. O défice, soubemos estes dias, está novamente descontrolado e não será cumprido sem medidas de austeridade adicionais. Ou seja, temos um país mais pobre, temos uma sociedade mais doente, temos um estado mais debilitado e limitado na sua capacidade de atuação, temos uma distribuição mais injusta dos recursos e dos lucros que o país consegue gerar e estamos ainda mais endividados e expostos aos mercados externos.

É por isso que não é possível evitar uma certa repugnância quando ouvimos o primeiro ministro dizer que estamos melhor. Ninguém o sente nas suas vidas e as estatísticas também não o demonstram de forma alguma. A suposta descida do desemprego fez-se à custa da emigração e da eliminação de desempregados de facto das estatísticas dos desempregados oficiais. A descida das taxas de juro para uma dívida astronomicamente maior e ainda classificada como lixo pelas agências de notação é o corolário da artificialidade, manipulação e especulação que dominam o mundo dos interesses financeiros e que alimentam estrategicamente a narrativa da crise. A suposta melhoria do clima económico é a direta repercussão de uma sucessão de eventos perfeitamente alheios ao país: preço do petróleo, injeção de dinheiro na economia pelo Banco Central Europeu (BCE), valorização do dólar e compra de dívida pelo BCE.

Os últimos dias mostraram bem a dimensão da perversão deste governo. É verdadeiramente chocante que PSD e CDS estejam a fazer tudo para precipitar o fracasso da Grécia por motivos meramente eleitorais. A tragédia grega que se avizinha é o primeiro acto de uma tragédia europeia que arrastará inevitavelmente Portugal num segundo acto como avisam vários especialistas.

Ao mesmo tempo, PSD e CDS cavalgam o ressabiamento de Isilda Pegado com o sucesso da lei da interrupção voluntária da gravidez e preparam-se para restringir a IVG no Serviço Nacional de Saúde num momento em que o número de abortos se reduziu para valores historicamente baixos por força da lei virtuosa que os portugueses sufragaram em referendo.

À medida que a campanha for prosseguindo, o embuste vai-se adensar. Tal como aconteceu em 2011, Passos Coelho e Paulo Portas vão prometer o que não querem cumprir. Tal como aconteceu em 2011, os meios de comunicação social vão ser simpáticos para PSD e CDS, alimentando histórias que envolvam elementos da oposição e apagando os escândalos do governo da agenda mediática. Tal como aconteceu em 2011, grande parte dos portugueses não vão votar entregando aos “boys” e aos adeptos dos partidos (que nunca faltam) a decisão do futuro do país.

O país está confrontado com grandes dificuldades e as decisões que estão a ser tomadas pela maioria que governa põem em causa o nosso futuro colectivo. Se não queremos que os donos disto tudo voltem a ser o clero e a nobreza como acontecia na Idade Média, então Outubro é o tempo certo para mudarmos de rumo. De outro modo, quando quisermos fazê-lo, talvez seja tarde demais.

Publicado no Correio do Minho.

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