A mulher de César

A República da Irlanda tornou-se recentemente no primeiro país do mundo a aprovar a igualdade no casamento civil pela via referendária, permitindo a todos os cidadãos acederem ao casamento independentemente da sua orientação sexual. A liberdade e a igualdade infligiram uma derrota pesada à Igreja Católica que, depois de ter estado no lado errado da História na discriminação racial, na humilhação e menorização das mulheres e na intolerância religiosa, continua a envergar uma narrativa que favorece e estimula a homofobia e, consequentemente, as normas que perpetuam a desigualdade entre os cidadãos, os comportamentos que se revestem de ódio e as leis que validam a perseguição em função da orientação sexual.

A reação do Vaticano à decisão livre e soberana do povo irlandês (“uma derrota para a humanidade”) é bem exemplificativa do envolvimento da Igreja Católica neste referendo, com bispos e grupos conservadores radicais a rasgarem as vestes na oposição à igualdade no casamento. Ironicamente, acenavam com a mesma Bíblia em que se ensina aos homens da Igreja que devem deixar para “César o que é de César”.

Numa sociedade que já percebeu de que se fala quando se fala sobre orientação sexual, a postura do Vaticano em relação à homo- e bissexualidade é de uma extraordinária e inusitada incompreensibilidade.

Em primeiro, porque a orientação sexual não é uma matéria de escolha mas um constituinte inato da diversidade de que se compõe a natureza humana. Tal como não se escolhe a cor de pele, a altura ou a cor do olhos também não se opta em matéria de orientação sexual.

Em segundo, porque a Igreja Católica acumulou equívocos ao longo da História posicionando-se repetidamente do lado mais sombrio da discriminação e da repressão em função de outros atributos humanos (género, cor de pele ou doenças, por exemplo). Mais grave é que, apesar das desculpas, não parece ter aprendido suficientemente com os erros do passado.

Em terceiro, porque os corredores da Igreja Católica estão povoados de pessoas com orientação sexual homossexual que vivem amarguradamente dividas entre o discurso oficial machista e revanchista do poder e o pensar racional, o acolher humanista e o sentir genuíno de cada um.

Outro facto que choca na posição da Igreja Católica é o contraste entre o ruído agressivo contra o fim da discriminação dos homossexuais e o silêncio ruidoso perante os sucessivos atentados contra a Humanidade que são quotidianamente perpetrados em razão da orientação sexual. A Igreja escolheu falar acerca da vitória da liberdade e da igualdade na República da Irlanda mas escolhe ficar calada no que respeita à vaga de criminalização da homossexualidade e de promoção da homofobia violenta que se verifica um pouco por todo o mundo, incluindo em vários países cristãos.

No fundo, a Igreja reproduz os preconceitos machistas mais irracionais das sociedades de tradição judaico-cristã, atribuindo-lhes um carácter sagrado que obviamente não têm.

É, pois, uma matéria que nos causa um enorme desconforto. Tanto mais que, como é sabido, a Igreja Católica é uma multinacional milionária que goza de inúmeros privilégios civis e fiscais em inúmeros países, incluindo Portugal. É também (mas não só) com o dinheiro desses privilégios que tem e desses impostos que não paga que a Igreja Católica organiza estas campanhas baseadas no ódio, na ignorância e no preconceito contra os direitos civis de outros cidadãos que, tantas vezes, nem sequer comungam da sua doutrina.

Os factos da Irlanda tiveram a virtude de nos mostrar que a Igreja de Francisco continua a viver em permanente contradição com a palavra de acolhimento que apregoa. E se, por um lado, continua a recusar-se a deixar para “César o que é de César” insiste, por outro, em mostrar-se-nos como uma autêntica mulher de César que nem parece nem é.

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