Um verão que foi um balde de água fria

Num ano em que a meteorologia não foi propriamente simpática para o veraneio, o que sobra deste verão também não é particularmente risonho.

Em primeiro, voltámos a confrontar-nos com a necessidade de utilizar dinheiro público para garantir o resgate de um banco que pagava generosamente aos seus administradores e gestores para garantirem que o dinheiro dos investidores e depositantes estava seguro. Para além dos milhões de euros que o Estado se arrisca a perder numa operação que foi apresentada aos portugueses de forma descaradamente dúbia, o caso do Banco Espírito Santo (BES) também nos colocou perante a trágica evidência de que as garantias do governador do Banco de Portugal, do Primeiro-Ministro e, até, do Presidente da República têm um prazo de validade demasiado curto para que possa existir confiança nas instituições que são fundamentais para o funcionamento do Estado. O que sobra para os portugueses é, portanto, uma conta para pagar e confiança institucional a haver.

Em segundo, voltámos a confrontar-nos com sérios problemas organizativos que lançaram o caos nos Tribunais. Por um lado, o governo não teve competência para granjear um amplo consenso político e social para a necessária reorganização geográfica dos tribunais e, por outro, surgiram uma série de problemas informáticos que levaram ao desaparecimento (temporário?) de inúmeras peças processuais, o que tem como principal consequência acrescentar mais atrasos aos já problemáticos atrasos da Justiça. Nesta matéria, o que sobra para os portugueses são situações de grave disfunção do sistema judicial e um táctico pedido de desculpas desprovido de qualquer consequência prática.

Em terceiro, voltámos a confrontar-nos com graves problemas no arranque do ano letivo na escola pública. Apesar de continuar a ostentar um discurso de grande hostilidade em relação aos professores, responsabilizando-os pela maior parte dos problemas que existem no ensino público, a verdade é que o grande responsável pelo caos que se vive no arranque deste ano letivo é o próprio governo. Nem a demissão daquele que foi identificado como “responsável técnico” pelos erros no concurso de professores elimina a necessidade de se retirarem consequências políticas destes graves incidentes que tanto perturbam o ambiente escolar e a qualidade do ensino ministrado nas escolas públicas. O Ministro sai desta trapalhada muitíssimo fragilizado na sua autoridade e na sua legitimidade políticas, sem capacidade para exigir rigor e competência aos agentes da educação depois de ter falhado de forma tão evidente naquilo que são as competências mais elementares do Ministério que dirige. Na educação, o que sobra para os portugueses é um sistema público de ensino ainda mais incapaz de contribuir para a redução das desigualdades.

Em quarto, voltámos a confrontar-nos com os piores vícios da política partidária. Desde do processo das eleições directas em que o Partido Socialista agonicamente se envolveu até à notícia de que os contratos realizados por algumas autarquias do PSD serviam para financiar campanhas partidárias, passando pelos avanços e recuos do pior populismo personificado por Marinho Pinto, tudo contribuiu para cavar mais uns centímetros no fosso profundo que afasta os eleitos dos eleitores ao longo das últimas décadas. O que sobra para os portugueses é um sistema político-partidário ainda mais pantanoso e enfraquecido pelo caciquismo, ameaçado pelo populismo e depauperado pelo tráfico de favores e influências.

Em quinto, voltámos a confrontar-nos com a inutilidade a que, por actos e omissões, o Presidente da República condenou o seu próprio exercício político. Há muito que tínhamos percebido que o Presidente tratava de forma desigual o governo do seu partido comparativamente com o governo que o antecedeu. Contudo, este verão tornou as diferenças ainda mais evidentes. A condescendência com que abordou as responsabilidades do governo e do regulador no caso BES, a passividade com que assiste ao caos na Justiça, a tolerância com que aceita a incompetência no arranque do ano lectivo e a forma conivente como iliba o Primeiro-Ministro de dar as explicações que ainda se impõem relativamente ao chamado “caso Tecnoforma” são provas bastantes da concertação que existe entre o governo PSD/CDS e a Presidência da República. O que sobra para os portugueses é, portanto, a perda de confiança na capacidade arbitral e reguladora do Presidente da República.

Mas nem tudo foi mau. O verão é um tempo fértil em histórias mediáticas que se extinguem com a chegada da chuva ou o regresso ao trabalho. E a história mais mediática do ano fez-se com baldes de água gelada vertidos sobre cabeças empenhadas em ajudar as associações de doentes com esclerose lateral amiotrófica (a Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica – APELA, no caso português). Que ao menos esta iniciativa solidária, que conjuga nas doses certas a generosidade, a criatividade e, por não dizê-lo, algum exibicionismo, tenha servido para aquecer um verão que foi uma autêntica banhada gelada para o país.

Artigo publicado no Correio do Minho.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s