Ser-se senhor doutor

O Daniel Catarino faz um comentário no Público sobre os médicos (e a sua vocação) e os acessos às escolas médicas.

O texto crítico tem muitas verdades implícitas mas também algumas imprecisões.

Existe ainda, aparentemente, um sentimento generalizado que a atividade médica tem um status próprio e uma elevação moral e de dedicação à arte no estilo missionário do conceito. Esta visão quase idolatrária da profissão de médico não contribui para um discussão livre e desapaixonada do tema. Existem várias fontes de pressão para se colocar os médicos e médicas num nível de excelência que não é exigido na maioria das profissões, algo similar aos padres, aos militares e outras atividades consideradas de exceção. A questão não deveria ser se essas são atividades que realmente exigem uma elevada dedicação (científica, técnica, moral, disponibilidade) e de sentido de missão, mas se as outras profissões não deveriam ter o mesmo nível de exigência. O impacto que a atividade da mais comum das profissões pode ter na nossa vida é tão significativo como qualquer atividade considerada de exceção. Vemos isso no dia-a-dia quando um funcionário do fisco comete um erro que nos faz perder um dia de trabalho, quando o construtor civil adultera os planos de construção e isso leva a infiltrações ou em casos mais extremos quando más práticas podem levar a descalabros bancários com efeitos nefastos para milhões de pessoas e até para a autonomia de um país.

O Daniel refere ainda que deveria haver um processo de seleção dos candidatos a medicina com base em entrevistas e cartas de recomendação como se faz em algumas escolas médicas no reino unido. O Daniel desconhece que isso já é feito em algumas escolas médicas portuguesas (U. Algarve, U. Minho) em estudantes que entram com uma licenciatura já concluida. O processo não é facilmente generalizável a todos os candidatos pelo simples facto que são na ordem dos milhares e é um processo moroso e dispendioso (com impacto no próprio candidato e criando uma assimetria no acesso). Além disso, mesmo em instituições em que esse processo é a regra, o processo não leva necessariamente à seleção dos melhores candidatos. O que faz diferença em países como o Reino Unido é que uma vez entrado, um candidato a médico tem de provar continuamente o nível de excelência que lhe é exigido e nos casos aberrantes pode ser impedido de concluir a licenciatura. O caso em Portugal é bastante mais crítico pois, uma vez entrado numa licenciatura, um estudante universitário dificilmente pode ser expulso da academia ou sequer impedido de ingressar no mesmo curso noutra instituição. Num país em que os processos de avaliação e de certificação ainda são vistos como um instrumento de manipulação e opressão persecutórios ao estilo do Estado Novo dificilmente seremos capazes de nos elevar (todos e em todas as profissões) ao nível de excelência que desejamos.

Nas palavras de Pinto Machado, enquanto escola temos uma obrigação perante os estudantes (de os educar) e perante a sociedade (de não deixar progredir quem não atinge os mínimos). Esse é o espírito que reina na ECS, onde me orgulho de trabalhar.

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One comment

  1. Perguntem à PJ o que pensa sobre o ser-se senhor doutor (no comentário por extenso,lapso fatal). Classe cada dia mais bem vista…

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