Da Consciência (Parte 1) – Schizos

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Buraco de trépano em crânio do neolítico. O perímetro do orifício apresenta bordos arredondados indicando que houve crescimento ósseo e demonstrando que o doente sobreviveu.

consciência: nome feminino 1. conhecimento imediato da própria atividade psíquica 2. faculdade de se conhecer intuitivamente 3. sentimento de si mesmo 4. conhecimento espontâneo e mais ou menos vago; impressão 5. PSICOLOGIA parte da atividade psíquica de que o sujeito tem um conhecimento intuitivo 6. FILOSOFIA estado no qual o sujeito se conhece enquanto tal, e se distingue dos objetos que o rodeiam 7. faculdade de fazer juízos de valor sobre os próprios atos 8. honradez; retidão 9. cuidado; esmero; escrúpulo consciência [Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2014].

A noção de que o conteúdo da cavidade craniana era essencial à vida tem raízes pré-históricas. Através de vestígios esqueléticos desse período há evidência de cirurgias de descompressão craniana (provavelmente consequentes a alterações de consciência por trauma) com a recuperação do indivíduo tanto quanto é possível inferir da cicatrização óssea. No entanto, estas evidências não indicam se o ser humano pré-histórico associava os orgãos intracranianos ao que hoje designamos por “consciência”.

Os primeiros registos de uma interpretação desta natureza surgem na cultura do antigo Egipto. Nas cerimónias fúnebres os corpos eram embalsamados e os orgãos internos (coração, pulmões, fígado, intestinos), que eram considerados essenciais à vida póstuma, eram colocados em jarros canópicos e depositados com o corpo. O coração era considerado o local onde residia a “alma” e era deixado no corpo. Curiosamente, o cérebro era desconsiderado como um orgão essencial à vida. Inicialmente, não era removido pela dificuldade de acesso e mais tarde passou a ser removido através do nariz (um processo que ainda perdura em algumas técnicas cirúrgicas de acesso à cavidade craniana).
O pensamento de que o coração era o local de residência da nossa alma mater irá perdurar durante toda a cultura dominante do mediterrâneo (grega, romana, persa, egipcia) e é recapitulada por Avicena, Galeno e outros pensadores até à idade média que consideravam o cérebro um orgão minor (por exemplo, pensavam que servia para dissipar calor gerado no coração). É neste contexto que surge a expressão “saber de cor” (latim: do coração) da qual deriva o verbo “decorar“. Isto é, saber da alma! A expressão “sagrado coração” relaciona-se também com esta noção de o coração ser a essência do ser, neste caso de Jesus Cristo enquanto redentor de toda a humanidade.

Nota: Em “O erro de Descartes” tentaremos explicar esta associação popular entre o coração e a consciência (sentimento de si) e entender o papel dos sentidos na construção da imagem que cada um tem do seu corpo e da forma como interage com o mundo. 

A cultura vigente começava, no entanto, a levantar questões filosóficas e de fé pois a noção de uma “alma” (capaz de se conhecer, de se sentir a si própria) era um aspeto distintivo entre o ser humano e os animais que não era compatível com a noção de que todos os animais têm um coração. Isto era agravado pelo facto de durante este período, muito do conhecimento do corpo humano ser derivado do estudo de animais mortos para alimentação (por comparação; daí a expressão “mata o teu porco, conhece o teu corpo”) uma vez que a exploração de cadáveres humanos e a vivisseção de animais ser proibida. Os estudos de Harvey, no século XVII, que demonstrou cientificamente a existência de um sistema circulatório com vasos comunicantes entre o coração e artérias e veias, determinou um novo papel para o coração como motor do sangue, tornando o dilema mais complexo ainda.

A abertura de espírito trazida pelo Iluminismo e pelo Humanismo durante a Renascença levaram à criação das primeiras escolas médicas e impulsionaram a procura de novas respostas para os dilemas deixados pelos clássicos. Neste período de enorme perfusão de pensamentos e filosofias fizeram-se uma série de descobertas paradigmáticas no estudo do sistema nervoso. A exploração e produção de eletricidade (inicialmente com uso de raias-elétricas e mais tarde com aparelhos desenvolvidos por Volta [daí que o potencial eléctrico tenha a unidade volt]) criou novos modos de estimular os orgãos incluindo nervos. Galvani descobre que se estimular os nervos de patas de rãs recentemente mortas era capaz de produzir uma contração muscular, postulando-se que o tecido nervoso comunicaria por impulsos elétricos. Na consequência destas experiências surge uma corrente de pensamento que tenta reanimar cadáveres com o recurso à eletricidade. Paralelamente, o estudo de cadáveres humanos torna-se progressivamente mais aceitável (Leonardo da Vinci) sendo frequente que os estudiosos da Medicina procurassem cadáveres de condenados à forca ou até o assalto de túmulos. É desta cultura que surgem histórias como a do Dr Frankenstein e o seu monstro popularizados pelo romance de Mary Shelley.

Nota: Embora o intuito inicial não fosse esse, atualmente, a passagem de corrente elétrica pelo corpo é a medida mais eficaz para reanimar doentes em paragem cardiorespiratória após enfarte. E é também uma forma de tratamento para algumas doenças psiquiátricas.

A criação de múltiplos engenhos neste período e a descoberta progressiva de leis que regulam a física/química e os paralelos que têm com o corpo humano (as articulações, o sistema circulatório, a transmissão do impulso nervoso) levou à visão mecanicista do mundo, e em particular do ser humano, que postulam um mundo deterministico, objectivo, regido por mecanismos baseados em princípios físicos universais sem a intervenção divina (Deus ex machina). A necessidade de conciliar estas iluminações com a existência de um deus todo poderoso foram sendo resolvidas pelo distanciamento da intervenção divina do mundano para um plano superior (Deus determinaria as leis do universo, mas não teria uma intervenção direta na acção dos seres) afastando-se definitivamente da visão mítica do deus das pequenas coisas que dominava o pensamento clássico. Só que esta visão tornava o dilema da alma cada vez mais complexo: se Deus já não residia nos homens então de que forma é que este se diferenciava dos animais. É o filósofo francês René Descartes que resolve este problema postulando que o homem ao contrário dos animais (seres inferiores na conceção judaico-cristã) seria capaz de ter pensamento (Cogito ergo sum; penso, logo existo) produzido por uma consciência extracórporea, uma alma imaterial que interagia com o corpo ao nível da glândula pineal. Esta conceção entrava em consonância com a clássica crença de um corpo etéreo. O éter, seria o tecido celestial, não material, que ligaria todo o universo incluindo Deus às almas dos seres humanos. O éter seria também o suporte para uma série de fenómenos físicos que se observavam mas não tinham matéria física visível (eletricidade, gravidade, magnetismo). Este pensamento dominou e continua a dominar todo o estudo das neurociências criando uma cisão (schizos) no pensamento vigente, de que corpo e mente são entidades distintas com regras próprias.

Nota: A visão mecanicista do ser humano domina de tal forma o pensamento moderno e a forma como nos identificamos enquanto indivíduos que o futuro é visto por alguns como um mundo puramente mecanizado, tema que iremos explorar mais a fundo em “A Consciência electrónica“. O impacto desta corrente extende-se, no entanto, muito para lá da noção de consciência; invade a forma como entendemos o ser humano social, a sua relação com o trabalho e o espiritual, a forma como educamos os jovens (e as expectativas destes contribuirem para o desenvolvimento económico) e a destruição do sentido estético (as artes, caóticas por contraposição) em detrimento do desenvolvimento intelectual.

Nos séculos que se seguiram, o avanço das neurociências foi espantoso com uma série de pensadores, investigadores, médicos a descobrirem e a localizarem novas funções associadas ao cérebro, à medula e aos nervos periféricos que definitivamente colocavam o sistema nervoso no centro das funções sensoriais e motoras do ser humano. Importa realçar o papel de Jean-Martin Charcot que no século XIX passa grande parte da sua vida profissional num hospício de Paris onde estariam internadas mais de 12000 mulheres por apresentarem alterações comportamentais que as tornavam párias da sociedade. O grande mérito deste, que é considerado o pai da Neurologia, é o de ter sistematizado a organização destas doenças por sintomas e achados anatomopatológicos, criando o primeiro sistema de diagnóstico das doenças do sistema nervoso. Foi ele que identificou e localizou a alterações do sistema nervoso doenças como a histeria (que os gregos acham ser causadas por movimentos do útero [histeros]), a epilepsia (classicamente associada a posse demoníaca), a doença de Charcot (esclerose lateral amiotrófica) ou as neuroses.
Paralelamente o estudo do comportamento humano torna-se uma ciência por si própria, a psicologia; e embora tenha sido largamente influenciada pelos estudos de Charcot, tenta-se destacar pelo estudo de alterações do comportamento sem um componente orgânico documentado. É no seio desta imancipação que se aprofunda a separação entre o estudo das doenças orgânicas do sistema nervoso (neurologia), o estudo das alterações do comportamento (psicologia) e o estudo das doenças puramente mentais (sem lesão orgânica documentada mas com alterações do funcionamento normal), a psiquiatria.

Iremos ver em “O erro de Descartes” e em “O (In)consciente” que esta cisão (uma verdadeira esquizofrenia = cisão + mente) artificial tem-se esbatido (felizmente), nas últimas décadas, sanando uma ferida que tem contribuido significativamente para a demonização e estigmatização da doença mental e, mais importante, do ser humano com perturbações da mente.

 

Nota: Para uma leitura mais completa deste tema recomendo o fantástico livro de Stanley Finger “Minds behind the brain

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