As eleições europeias e o futuro (1)

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A subida da extrema-direita em praticamente toda a Europa é o facto mais relevante desta noite eleitoral (na verdade, onde a extrema direita não subiu, subiram os populistas como Marinho Pinto e o MPT). Mas este resultado é tudo menos imprevisto.

Será preciso recuar até aos anos oitenta para se compreenderem (pelo menos em parte) as razões dos resultados eleitorais de hoje. Nessa época, a forte crise económica confrontava a Europa com enormes dificuldades para sustentar o chamado “Estado do bem estar” que a social democracia europeia (não confundir com o PSD português) tinha construído no pós-guerra. Dignidade no trabalho, direito à saúde, à educação, à segurança e à justiça e dignidade na velhice eram os pressupostos que alimentavam a estabilidade de uma Europa com uma classe média fortíssima. Nesse contexto, Tatcher e Reagen (e, em parte, Helmut Kohl) propuseram uma receita que marcaria os destinos da Europa nas décadas seguintes. Para eles, a única forma de manter a classe média tranquila e alinhada com o poder em contexto de crise seria reduzir o “Estado de bem estar” aos mínimos, privatizar os serviços públicos e liberalizar a economia de forma a promover crescimento económico capaz de financiar o Estado. A fórmula resultou nos primeiros tempos e marcou tempos de grande sucesso para a direita europeia (e americana). Mas nem o crescimento económico foi ilimitado nem a classe média aceitou o empobrecimento que lhe propunham. Foi assim que, à direita e à esquerda, os governos se foram endividando para suportar o Estado social, por um lado, e sustentar os desvarios da finança desregulada, por outro.

O resto da História é conhecida. A Europa está a braços com uma crise brutal, que se adensa com a concorrência do Oriente, o envelhecimento da sociedade e as políticas (neo)liberalizantes que emanam de Bruxelas. O resultado óbvio de tudo isto é a exacerbação dos nacionalismos, a agudização das divergências inter-culturais e inter-étnicas e o aumento da crispação social, favorecendo os partidos populistas à direita e à esquerda.

A esquerda democrática e moderada (a social democracia, no fundo) tem pela frente o enorme desafio de reconquistar a classe média. Mas para isso terá que se repensar, compreendendo que ninguém está disposto a fazer sacrifícios enquanto outros continuarem a lucrar desmesuradamente; terá que se renovar, compreendendo que ninguém está disposto a entregar o poder aos meninos do aparelho que nunca viveram para além das juventudes partidárias; terá que se refundar, compreendendo que ninguém está disposto a sufragar a mudança se não for proposta uma alternativa efectiva ao sistema estabelecido. Será que aprendemos alguma coisa com este dia 25 de Maio?

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