Liberdade e tradição

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Entretanto, a verdadeira democracia não é uma condição de “liberdade” que possa ser oferecida, concedida ou garantida, a um grupo populacional por um governo eleito ou totalitário. A verdadeira democracia é um processo longo e difícil, no qual o povo, protegido social e legalmente, tem (i.e., não “recebe”) todas as possibilidades de se exercer a si mesmo na administração da sua conduta social, individual e vital, e de progredir em direção a todas as formas melhores de vida. Em suma, a verdadeira democracia não é uma manifestação acabada que, como certos anciãos, goze o seu glorioso passado de lutas. É, antes, um processo de luta incessante com os problemas de desenvolvimento ininterrupto de novas ideias, de novas descobertas e de novas formas de vida. O desenvolvimento será contínuo e impossível de ser rompido somente quando o antiquado e senil, que desempenhou o seu papel em um estágio anterior do desenvolvimento democrático, for suficientemente lúcido para dar lugar ao jovem e novo em vez de reprimi-lo apelando para a dignidade, ou para a autoridade convencional.

A tradição é importante. É democrática quando desempenha a sua função natural de prover a nova geração com um conhecimento das boas e más experiências do passado, i.e., a sua função de capacitá-la a aprender à custa dos erros passados a fim de os não repetir. A tradição torna-se a ruína da democracia quando nega à geração mais nova a possibilidade de escolha; quando tenta ditar o que deve ser encarado como “bom” e como “mau” sob novas condições de vida. Os tradicionalistas fácil e prontamente se esquecem de que perderam a capacidade de decidir o que não é tradição. Por exemplo, o aperfeiçoamento do microscópio não foi conseguido pela destruição do primeiro modelo: o aperfeiçoamento foi realizado com a preservação e o desenvolvimento do modelo primitivo a par com um estágio mais avançado do conhecimento humano. Um microscópio do tempo de Pasteur não capacita o pesquisador moderno a estudar uma virose. Suponha agora que o microscópio de Pasteur tivesse o poder e o descaramento de vetar o microscópio electrónico. [Wilhelm Reich, A Função do Orgasmo]

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