No mundo de Paulo

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Corria a primeira metade da década de 90 quando ouvi Paulo (nome fictício) falar, pela primeira vez, dos helicópteros que sobrevoavam a sua casa. Contava-me que eram forças especiais, militarizadas, que se ocupavam de o vigiar com um plano para o raptar ou assassinar de seguida. Eu tinha pouco mais de seis anos e não sabia que esses helicópteros não existiam na realidade cognoscível, mas deliciava-me com os relatos. Brincava com helicópteros, daqueles de brincar, mas imaginava que eram os helicópteros da casa do Paulo a largar os militares que se encarregavam da vigia. Houve um dia em que o Paulo não veio contar-me as suas histórias. E, perante a minha pergunta, os meus pais disseram-me que o Paulo não voltaria mais porque tinha morrido da sua doença. Lembro-me de ter ficado triste, muito triste, mas vejo hoje que naquele dia me ajudaram mais a crescer do que todo o leite com cálcio e vitaminas que pudesse ter tomado.

E fui crescendo mais. Primeiro fascinado com a História (dos 7º, 8º e 9º anos), depois encantado com a Filosofia, o Português e a Psicologia. Entretinha-me a ler romances e jornais, assistia aos congressos políticos de fio a pavio e dedicava-me, por minha conta, ao estudo da Sociologia e da Antropologia. As dúvidas sobre a doença de que padecia Paulo não me saíam da cabeça. Tinha bem claro que só poderia ser Psiquiatra. E foi assim que, quase sem saber, entrei numa Universidade (do Minho) onde as Neurociências eram nucleares na investigação e desenvolvimento. Encantei-me pela Medicina mas não me desencantei pela Psiquiatria. Encontrei-me com as Neurociências mas não desisti da Psiquiatria. E aqui estou, quase 25 anos depois de ter entrado na escola primária do Campo Redondo (Bragança), a render a minha homenagem ao Paulo. Não me esqueci dele nem do que a vida dele significou para mim neste momento em que se fechou o ciclo da minha formação enquanto médico e psiquiatra.

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Um pensamento sobre “No mundo de Paulo

  1. Felicidades por esta nova etapa que se reinventa mas não se fecha!
    O maior presente que podemos deixar aos nossos filhos e a nós próprios é a educação e inquietude de não parar de perguntar. Que seja como a fénix que renasce das cinzas e não como ciclos finitos.

    Parabéns aos teus pais também pelo presente que te deixaram.

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