Os ansiolíticos na prática clínica

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A discussão em torno do uso de ansiolíticos conheceu um novo capítulo nos últimos dias com a publicação de um grande estudo que engloba mais de 100.000 doentes acompanhados em unidades de cuidados de saúde primária no Reino Unido. Neste estudo, os autores encontraram taxas de mortalidade mais elevadas entre aqueles que tomavam ansiolíticos e aqueles que não estavam medicados com este tipo de fármacos. Apesar das populações serem significativamente diferentes, com maior frequência de doenças (muitas das quais mortais) e de consumos de álcool e tabaco entre aqueles que tomavam ansiolíticos, os autores afirmam ter controlado estes factores.

Importa salientar que a publicitação mediática deste tipo de estudos sem uma interpretação dos resultados compreensível para a população geral, contribui para a desinformação, criando problemas de adesão aos tratamentos, ajudando a prolongar desnecessariamente doenças e condições que são perfeitamente tratáveis e contribuindo para reforçar mitos e medos associados ao uso destes medicamentos e dos psicofármacos em geral.

Em primeiro, o uso de ansiolíticos está indicado em várias condições psiquiátricas, estando mesmo recomendada a sua utilização em situações específicas. Quando utilizados de forma adequada e sob supervisão médica, são fármacos com uma aceitável relação custo/benefício.

Em segundo, deve destacar-se que os ansiolíticos não constituem a base do tratamento das Perturbações de Ansiedade, sendo contudo importantes em muitas situações, nomeadamente quando utilizados durante períodos limitados de tempo e em doses moderadas.

Em terceiro, os ansiolíticos têm potencial adictivo e o seu uso está associado a efeitos prejudiciais a longo prazo sobretudo quando utilizados durante longos períodos de tempo (vários anos) e em doses elevadas. Deve salientar-se que o potencial adictivo destes fármacos é variável conforme a molécula e o modo de libertação da mesma.

Em quarto, o estudo agora publicado não demonstra que os ansiolíticos aumentam a mortalidade ou são prejudiciais mas apenas observa que os doentes que tomam estes fármacos apresentam taxas de mortalidade mais elevadas. Como bem observa a psiquiatra Marcia Valenstein, da Universidade do Michigan, trata-se de um estudo retrospectivo e observacional que não permite retirar quaisquer conclusões acerca da causalidade entre o uso de ansiolíticos e a mortalidade dos doentes. Sendo certo que foi por se encontrarem mais doentes que passaram a utilizar estes fármacos e estando demonstrado que tinham frequências mais elevadas de doenças potencialmente fatais, a observação estatística desta associação é insuficiente para as conclusões que são mediaticamente apresentadas. Por exemplo, as pessoas que foram mais vezes ao médico nos últimos sete anos têm taxas mais elevadas de mortalidade mas isso não significa que ir ao médico seja a causa da morte (antes pelo contrário).

Tendo em conta todos estes dados, a decisão de utilizar ansiolíticos deve ser ponderada caso a caso, pesando com os riscos e benefícios da sua utilização, e sempre sob supervisão médica. Para isso é fundamental que os médicos estabeleçam com os seus doentes uma relação baseada na confiança mútua e que os doentes apresentem sem complexos os seus receios e dúvidas em contexto de consulta. Mais do que determinar normas administrativas, é também fundamental que as escolas médicas, os colégios de especialidade e o Ministério da Saúde trabalhem em conjunto na definição de programas de formação dos médicos em prescrição racional de medicamentos com vista à melhoria dos cuidados prestados ao doente.

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