“A minha doença tornou-me uma pessoa melhor”

A experiência de estar doente, ainda que difícil, é profundamente transformadora. Nos últimos tempos, alguns doentes tornaram-se famosos e protagonizaram momentos verdadeiramente mediáticos e inspiradores. Através destas iniciativas, ajudaram a aumentar a visibilidade de algumas doenças esquecidas e mal amadas, forçaram a resolução de problemas graves no acesso a cuidados de saúde, divulgaram estratégias que previnem mortes, criaram redes de entreajuda entre doentes, facilitaram a comunicação dos doentes com os profissionais de saúde, estimularam o aprofundamento da literacia em saúde e desencadearam autênticas batalhas pela redução do estigma da doença. Todos eles, cada um à sua maneira, contribuíram para transformar vidas, quase invariavelmente, de forma positiva.

Lá fora, as associações de doentes e as iniciativas de doentes famosos têm uma longa história mas em Portugal a tradição era outra. Da doença aceite como uma inevitabilidade à qual era necessário obedecer até à doença como ponto de partida para uma vida diferente, a vida possível, trilhou-se um caminho muito interessante. Tenho aqui chamado a atenção para o trabalho de associações na área da saúde mental. A TimetoChange, britânica, e a Encontrar+se, portuguesa, são dois bons exemplos do bem que se faz neste domínio. Foi no site britânico que encontrei uma história interessante, contada na primeira pessoa, sobre a forma como a Perturbação Obsessivo Compulsiva transformou a vida de uma jovem inglesa (e que dá título a este texto). Em Portugal, é mais difícil encontrar histórias contadas na primeira pessoa, mas estão em curso alguns projectos que pretendem colocar doentes a falar com doentes e com o público em geral, como este site da economista e investigadora Sandra Câmara Pestana.

Voltando ao princípio, estar doente é transformador. No sofrimento, na angústia e na incerteza emergem algumas das melhores qualidades, redefinem-se as prioridades e os interesses, reconfiguram-se as perspectivas sobre a existência e renovam-se as esperanças que compõem o melhor de cada um.

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3 comments

  1. O título deste post remete para o (suposto) carácter redentor do sofrimento, o que é uma forma de despachar o óbvio com racionalizações, até porque, desde logo, o que seríamos sem ter sofrido na pele a experiência de estar doentes é do domínio do contrafactual. Diria apenas que, baseado na minha própria experiência pessoal, podemos encarar cada momento da vida como uma forma de aprendermos alguma coisa, ou não, incluindo a penosa experiência da doença, seja aquela que é nossa, seja a dos que nos estão próximos. Podemos reconhecer a nossa fragilidade enquanto indivíduos, o que nos ajuda a aceitar melhor a dos outros e a ser solidários, mas podemos igualmente sentir revolta por um ‘castigo’ que achamos que não merecemos (e as duas possibilidades não são sequer exclusivas). O Sofrimento (assim como a Morte) representa um abismo tão grande na Existência, que sobre ele me vem à memória a frase de Wittgenstein; ‘sobre o que não podemos falar, devemos ficar calados…’

    • Sem dúvida. Não há generalizações possíveis quando o tema é sofrimento e doença. Na verdade, este título remete para um testemunho pessoal. Uma experiências, entre várias possíveis.

  2. Olhando para o que escrevi, parece que censuro esta jovem por falar da sua doença, quando não era essa a intenção. Ela tem afinal o direito de interpretar a sua experiência da forma que quiser e concordo inteiramente que fale dela, estar ou ter estado doente não deve nunca ser motivo de vergonha. Mas creio que a tentativa de tornar a doença visível se derrota a si própria quando a ênfase é colocada naquilo que a doença traz de positivo, quase como se ela fosse desejável (o testemunho da jovem na realidade põe em relevo o quão indesejável a sua condição é). Nós vivemos numa sociedade em que só o sucesso, a juventude e a beleza são aceitáveis, e o falhanço, a velhice e a doença são uma ameaça a essa ideologia do positivo, que é profundamente castradora e superficial. Está na altura de recuperar o lugar da tragédia na condição humana, se quisermos sobreviver enquanto espécie no longo prazo…

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