No mundo de Sofia

© Délia de Carvalho

© Délia de Carvalho

Sofia (nome fictício) recebeu a notícia com uma invulgar tranquilidade. O cancro que lhe acabavam de diagnosticar até poderia ser o menor dos seus problemas, mas a verdade é que era um cancro. E, apesar das esperanças se terem multiplicado nos últimos tempos, a verdade é que até o nome assusta. Sofia estava fria, não nas mãos, mas no olhar. As rugas que os seus trinta e sete anos não faziam prever contorceram-se num esgar de tristeza. Os pensamentos sucederam-se com uma velocidade (e voracidade) estonteante. Mas Sofia não chorou. Não disse nada. Recebeu a notícia, as informações estandardizadas, os papéis com a marcação dos exames, das consultas e da cirurgia, as palavras de conforto e a receita de um medicamento ansiolítico. Saiu num movimento brusco, pagou a taxa moderadora e refugiou-se na sua casa. Decidira não contar a ninguém.

E não contou. Levantou-se no dia seguinte, como fazia quotidianamente há dez anos, vestiu os filhos, levou-os à escola e foi trabalhar para a caixa de um supermercado de Braga. Recebia pouco mais de seiscentos euros mas, na verdade, o que entrava na conta nunca chegava aos seiscentos pelo que compunha o ordenado com as horas extraordinárias que podia. Trabalhou até às seis foi buscar os dois filhos à escola e veio para casa preparar o jantar para o marido, desempregado desde que não lhe renovaram o contrato de auxiliar de acção educativa numa escola acabada de encerrar. Tal como fazia quotidianamente lavou a loiça e caiu estafada na cama pouco passava das dez. Adormeceu impassível e serena. Determinada na sua decisão.

Sofia repetiu o ritual durante dezasseis dias: acordar, arranjar-se, levantar as crianças e levá-las até à escola no caminho para o trabalho, vestir a farda, sorrir, passar códigos, almoçar o que sobrou do jantar, sorrir outra vez, passar códigos de novo, despir a bata, trazer as crianças da escola para casa, fazer o jantar, deitar as crianças e cair no sono profundo. Como uma pedra. Todos os dias dormia como uma pedra, mas agora custava-lhe um pouco mais a adormecer.

Ao décimo sexto dia, a consulta. Não tinha feito os exames. Não queria operar-se já. Preferia aguardar que o marido encontrasse um emprego. Não estava disposta a estender a tigela na Cáritas nem a receber em casa a visita de um banco, nem que esse banco fosse o Banco Alimentar. Tinha na mão as requisições dos exames que devia ter feito, mas as contas da renda, comida, água, luz e gás eram as únicas folhas que verdadeiramente lhe interessavam. Estava tudo contado até ao centavo. Não tinha qualquer possibilidade de receber menos um cêntimo, estando de baixa, pelo que preferia continuar a trabalhar.

Vai à Psiquiatria. Tinha que estar maluca. Só podia estar doida. Ninguém no seu perfeito juízo pensa assim. E assim foi. Sofia contou a sua história, detalhando até ao centavo porque tinha que esperar até ao dia em que Carlos, seu marido, encontrasse um emprego. Estava certa nas suas contas, lúcida nas suas previsões, desencantada nos seus anseios. Mas a Sofia vive num país que está melhor, dizem eles.

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Uma história de vida que a Sofia, agora operada e a terminar os tratamentos de quimioterapia, me pediu para partilhar na esperança de que as outras Sofias tenham, por direito, as oportunidades que não teve sem a ajuda de alguns amigos. A imagem que a ilustra é da Délia de Carvalho, uma artista que está a expor por estes dias no CAAA, em Guimarães.

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