Observar a vida, por Daniel Sampaio

O filósofo Sócrates escreveu um dia: “A vida que nunca foi examinada não merece ser vivida”. Esta frase parece mais actual do que nunca, porque muitos de nós se movem num quotidiano apressado, sem tempo para a análise e a reflexão.

No sistema partidário, a observação e a ponderação cuidada não abundam: predominam o sentido táctico, o efeito fácil, a vitória momentânea sobre o adversário político. Por exemplo: a discussão de um eventual referendo sobre a adopção por casais do mesmo sexo foi um triste exemplo de falta de reflexão e de oportunismo político.

Neste tema, compreendo que haja opiniões divergentes. A citação da “verdade” com recurso a diversas investigações carece de evidência científica, porque todos os estudos são susceptíveis de crítica. Por isso, temos de observar e “examinar” a vida, para decidir. Ao fazermos, deveremos colocar a criança no centro da nossa observação e verificar quem está em melhor condições de a proteger e cuidar. O que se deve discutir é a parentalidade, isto é, a capacidade de ser pai e mãe, e não exagerar na discussão jurídica, que nos desvia do verdadeiro problema: quem poderá cuidar melhor?

Chegados a este ponto, poderemos questionar: há evidência científica a demonstrar que um casal do mesmo sexo “cuida e protege pior” uma criança a seu cargo? A resposta é clara: não.

Portanto, nada deverá impedir um casal nessas circunstâncias de o fazer: trata-se de um direito que não deve ser negado. Se a questão é difícil? Sim, por isso deveria merecer mais respeito a quem tem o dever de “examinar a vida” e legislar. Todos percebemos que a ideia do referendo surgiu sem ponderação e foi baseada numa pressa irreflectida para dificultar o processo. Penso que o referendo está condenado à partida (por várias razões), mas exige-se a quem decide, nomeadamente ao Presidente da República, que não precipite uma consulta popular que poderá contribuir para confusão à volta deste tema.

Examino a vida e por isso sei que há muitos a pensar de modo diferente. Não se trata de uma ciência exacta, por isso é natural que, num assunto tão difícil, surjam opiniões contraditórias. O que devo exigir é respeito de um lado e outro, porque ninguém se pode afirmar como detentor da verdade. E proponho que cada um, na solidão da sua intimidade, se interrogue sobre o sentido da sua tomada de posição, colocando a criança no centro da análise,  qualquer que seja o contexto onde se move. Como sabemos, a ideologia fanática (dos dois lados) sempre tem prevalecido, por isso o debate sobre a co-adopção e adopção por casais do mesmo sexo tem sido o mau espectáculo a que todos temos assistido.

Infelizmente não é fácil, e não só por fanatismo ideológico. Observamos pouco a vida e quase não a examinamos. Muitas vezes queremos conversar com alguém que não retira os olhos de um telemóvel ou de um computador. As relações humanas não se constroem, muitas vezes, nos sentimentos próximos, no compromisso, na responsabilidade, no respeito e no reconhecimento do outro. Quantas relações amorosas se desfazem agora por uma lacónica mensagem de telemóvel? Quantos pais separados não se olham nem conversam, e decidem a vida dos filhos por correio electrónico, que ainda pode ser utilizado em tribunal?
Lembremos Sócrates, o autêntico. E examinemos a vida.

Esta crónica foi publicada na Revista 2 (jornal Público), edição de 26 de Janeiro de 2014.

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