Lanicemina: um novo tratamento para a depressão?

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A conceituada revista Molecular Psychiatry publicou um estudo que poderá dar origem ao aparecimento de tratamentos mais eficazes para a depressão. A depressão é uma doença que afecta 20% da população mundial ao longo da vida e que está no topo da lista dos anos de vida saudável perdidos. Apesar dos tratamentos actuais (fármacos, electroconvulsivoterapia, estimulação magnética transcraniana e psicoterapia) serem bastante eficazes, a verdade é que cerca de 1/5 dos doentes sofre de formas refractárias da doença, necessitando de combinações dos diferentes tratamentos disponíveis para obter algumas melhorias.

Desde há muito que se sabia que a ketamina, um anestésico frequentemente utilizado como droga recreativa, tinha propriedades antidepressivas, provocando melhorias mais rápidas que os antidepressivos convencionais (recordamos que com o tratamento antidepressivo convencional são necessárias 2 a 4 semanas para se verificar uma melhoria sintomatológica sustentada). Os efeitos secundários associados ao uso da ketamina, incluindo o aparecimento de sintomas psicóticos, sempre foram o grande entrave à sua utilização com fins terapêuticos pelo que a investigação ainda estava muito limitada ao uso de modelos animais.

No estudo agora publicado, uma equipa conjunta de investigadores da Universidade de Yale e da empresa farmacêutica AstraZeneca desenvolveu uma substância denominada lanicemina que, apesar de actuar sobre os mesmos receptores que a ketamina (receptores do glutamato de tipo NMDA), não partilha os seus efeitos secundários. No estudo agora publicado, que englobou um total de 152 participantes, a nova substância produziu efeitos antidepressivos em apenas 3 semanas, verificando-se persistência dos efeitos mesmo após a descontinuação do tratamento.

Os resultados são promissores e poderão contribuir para uma nova abordagem farmacológica da depressão. A maioria dos tratamentos antidepressivos existentes baseia-se na hipótese das monoaminas, promovendo um aumento da quantidade disponível de determinados neurotransmissores (como serotonina, noradrenalina ou dopamina) na fenda sináptica. Este novo tratamento propõe uma abordagem distinta, ao actuar directamente na transmissão glutamatérgica que se sabe estar envolvida na comunicação entre os diferentes neurónios. Apesar da importância deste trabalho, a disponibilidade de novos tratamentos baseados neste achado demorará alguns anos (quase uma década) a ser concretizada.

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4 pensamentos sobre “Lanicemina: um novo tratamento para a depressão?

  1. Depois da marijuana, da coca e da heroína, agora também o pó d’anjo (vá, uma prima dele) a voltar à ribalta da medicina. Esperemos que o antidepressivo dissociativo valha a pena e que contribua também para uma melhor compreensão da neuro-bio-fisiologia da doença.

    • Pois: todas essas drogas têm propriedades antidepressivas mas o problema é que esses efeitos não são sustentados no tempo, ou seja, acabam por falhar no tratamento da doença. Estou em crer que o glutamato vai ser mais importante nos próximos tempos do que alguma vez imaginámos.

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