A saúde mental é cara?

Por estes dias, um colega de outra especialidade comentou a sua perplexidade pelo facto das estatinas (medicamentos utilizados para controlar os níveis do chamado colesterol “mau”) não terem uma comparticipação superior à dos antidepressivos. Na sua ideia, as doenças cardiovasculares representavam um custo demasiado elevado em termos sociais pelo que se deveriam ser colocadas num lugar de primazia comparativamente com outras patologias, nomeadamente, as perturbações psiquiátricas. Tenho-me apercebido que esta é uma noção que está cristalizada não apenas entre a classe médica, mas em toda a sociedade de uma forma transversal. E o que dizem afinal os números?

Desde há uns anos que a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Banco Mundial encomendam à Harvard School of Business que elabore estudos acerca da evolução dos custos directos e indirectos da saúde e das doenças, com vista a estabelecer prioridades e definir programas de intervenção à escala global. Para facilitar a leitura dos dados, são definidos 3 critérios que podem ser consultados no site da OMSDisability-Adjusted Life Year (DALY), que se refere aos anos de vida saudável perdidos (seja por morte ou incapacidade); Years of Life Lost (YLL), anos de vida perdidos por morte; e Years Lost due to Disability (YLD), anos de vida perdidos por incapacidade.

causasmorte_anosdevidaperdidos

Da leitura deste primeiro gráfico (dados da OMS, 2001), percebe-se que existe uma dissociação interessante entre a frequência das causas de morte e o número de anos de vida perdidos por morte, o que facilmente se compreende tendo em conta a idade típica para cada uma das patologias em análise. A nível mundial, as doenças infecciosas, as doenças cardiovasculares e as condições perinatais constituem-se como um problema sério, enquanto nos países desenvolvidos a doença cardíaca e a doença cerebrovascular aparecem no topo da lista.

anosperdidosporincapacidade

Quando olhamos para a análise dos anos de vida perdidos por incapacidade (dados da OMS, 2001), a depressão unipolar (que é apenas um dos vários subtipos daquilo que genericamente chamamos depressão) aparece no topo da lista, tanto nos países desenvolvidos como nos países sub-desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. Além da depressão, há duas doenças psiquiátricas (ou com potencial de intervenção e prevenção psiquiátrica) que se encontram na lista das 10 mais incapacitantes. No caso dos países desenvolvidos, a doença de Alzheimer ocupa a a segunda posição e as doenças relacionadas com o álcool aparecem na quarta posição; nos restantes países, a esquizofrenia surge em 8º lugar e as doenças relacionadas com o álcool aparecem na 9ª posição.

custos2030

Se analisarmos os todos estes custos de forma integrada, verificamos que a depressão unipolar é a terceira doença que mais anos de vida saudável retira à Humanidade, acarretando custos sociais absolutamente exorbitantes. Adicionalmente, verifica-se uma tendência crescente não só da prevalência desta doença mas também do seu impacto em termos de custos, prevendo-se que em 2030 passe a ocupar o topo da lista dos anos de vida saudável perdidos.

Curiosamente, e apesar destes dados esmagadores, a Saúde Mental tem sido o parente pobre da Medicina em Portugal (mas também na Europa e nos USA).  É relativamente comum ouvirmos na nossa prática clínica colegas de outras especialidades protestarem contra o preço e/ou da comparticipação de alguns fármacos utilizados no tratamento das doenças mentais; de forma recorrente são difundidas notícias que apontam os custos dos tratamentos das doenças mentais como um sector onde é possível fazer poupanças; é comum assistirmos a manifestações públicas de pressão pela utilização de “tratamentos caros” para doenças cardiovasculares, neurológicas, infecciosas ou oncológicas mas é muito raro vermos alguém protestar por mais e melhores recursos para os serviços de saúde mental.

No fundo, as crenças interiorizadas pelos cidadãos em geral mas também pelos médicos e decisores públicos, o estigma da doença mental e a força dos lobbies instalados na Medicina têm relegado para segundo plano o investimento na área da Saúde Mental, desviando recursos que são indispensáveis para diminuir os custos económicos e sociais destas patologias. Também por isso é tempo de mobilizar a sociedade para a importância e os benefícios da prevenção e tratamento das doenças mentais, de apostar numa melhor formação dos médicos em termos de epidemiologia das doenças mentais e de dar visibilidade ao trabalho dos economistas que demonstram os ganhos do investimento nesta área. Pode ser que assim os decisores políticos possam tomar as decisões acertadas de que a sociedade tanto precisa.

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